Alice já mora aqui [caixa do correio: pais_da_alice@yahoo.com]
terça-feira, março 21, 2006
Primeiros passos
Quase sempre sem sapatos (ou com os bobux, que são como invisíveis), a Alice tem dado esporadicamente alguns passos sem outro apoio que não os seus próprios pés. Houve um retrocesso, coincidente com a compra dos rígidos Chicco, e agora parece que conseguiu ultrapassar o ponto onde estava há cerca de um mês. O assunto dos sapatos e o começo do caminho será abordado, em breve e como convém, num post cheio de linques. Hoje começa a Primavera, é o primeiro equinócio deste ano. No próximo equinócio (21 de Setembro) podemos já ser mais cá em casa. Até essa altura, podem ser mais a ler-nos. A partir de hoje, os primeiros passos na nova casa, aqui.
Não temos escrito porque temos passado mais tempo na parte da frente da casa, onde a luz da tarde voltou a ser inigualável. A Alice é portadora de um vírus que já passou pelas vias respiratórias e ataca agora o apetite e tudo o que tem a ver com o sistema digestivo, mas felizmente não atinge a boa disposição. Nós somos portadores de um segredo cada vez menos secreto e metemos mãos à obra para mais uma mudança de casa. Vamos ali empacotar uns posts e já voltamos.
Afinal, havia uma razão para as birrinhas, para os ataques de mimo (maiores ainda do que é costume) e para a falta de apetite. Um síndroma viral, apanhado sabe-se lá onde, começou por afectar-lhe a garganta, com tosse, etc., prolongando-se depois para o sistema digestivo. Resultado: a Alice comilona aceita agora três colheres de papa de arroz, no máximo, e afasta logo o prato, com um esgar de náusea. A médica diz que é normal e que a coisa passará por si, mais dia menos dia. Entretanto há reforço de líquidos, doses redobradas de beijinhos e uma diminuição visível da pancinha que atingia já, segundo vários relatos, graus acentuados de proeminência.
Hoje, nem sei bem porquê, ocorreu-me uma evidência: daqui a alguns anos, quando for mais crescida, a Alice não recordará um único dos momentos de absoluta felicidade que temos vivido até agora. E esta evidência, nem sei bem porquê, deixou-me melancólico.
É uma arte que a menina Alice tem vindo a aperfeiçoar, a das birrinhas por tudo e por nada (mais por tudo que por nada). Uma arte de fino recorte dramático, com ameaças de choro e gestos teatrais, mas a que o público-alvo consegue resistir de uma forma, digamos assim, próxima do estoicismo.
Atiras o relógio pela janela, com raiva, uma trajectória que acaba no pequeno pátio onde os gatos brincam com as sombras. Dizes regresso, navio, Ulisses, palavras contra a ideia do tempo que passa por nós assim, quinze andares a pique e depois nada. Eu olho as nuvens lá no alto, distantes, são as mesmas que os gregos viam, igual brancura e lentidão; os gatos escondem os ponteiros inúteis, tu perguntas algo que não entendo, algo sobre a importância do mar quando uma cidade nos espera.
Para a Rute, que esteve connosco ontem e em tantos outros dias, a partilhar nuvens e bocadinhos de bolo - o poema está na contra-capa de Nuvens & Labirintos, de José Mário Silva, publicado pela Gótica em 2001 (dois mil e um e depois nada).
Ontem não houve escola, fomos ver os peixinhos ao Oceanário. Eu não conhecia o aquário gigante, mas suspeitava que podia ser engraçado para um bebé. Os estímulos não são em demasia, as formas, as cores, as variações da luz devem ter qualquer coisa de intra-uterino. A Alice adorou, especialmente as lontras Amália e Eusébio, protegidas por um vidro onde podia tocar à vontade.
- Chegar o banco para a frente quando vou conduzir, mesmo que tenha sido eu a última utilizadora. - Adormecer com a máquina de lavar ligada (infelizmente, a nova aquisição não só fica longe do quarto, como é silenciosa; vale-me o contador da água por trás da parede). - Dizer "boa tarde" o dia todo.
Não me lembro de mais nenhuma mania estranha, i.e., que não conheça aos outros. Passo ao Ponto.
Fomos com a avó à loja comprar um saco para dormir e vimos lá um Tobias, um pouco mais cor-de-rosa que o nosso, um pouco menos coçado de amor, mas um Tobias. Insisti e a avó lá aceitou oferecê-lo como prenda antecipada de aniversário. A Alice riu-se para ele, agarrou-o e seguimos o périplo. Um quarto de hora depois tinha desaparecido das mãos da Alice e das imediações. No caminho inverso, nem rasto dele. O Tobias não quer pertencer à nossa vida. Em boa verdade, não lhe temos sentido a falta. Foi eficazmente substituído por um fantoche Miffy em peluche e por uma Girafa de baixo custo (oferta iluminada do avô António pelo Natal).
Tenho um amigo com quem comunico sobretudo por escrito vai para dez anos que me disse um dia: escreves mais quando estás bem, quando não estás, geralmente não dizes nada. Aqui por casa, já estamos habituadas à rotina. O truque é levantar-me antes da Alice, comer antes dela e se der tempo, tomar banho. Depois alimentar e vestir a miúda, deixá-la na cama com brinquedos enquanto tomo conta de mim e rumar para a escola com tempo para encontrar um bom lugar para estacionar. E sem arrumador, de preferência, no outro dia apanhei um com manhãs difíceis e decidi escolher o meu próprio sítio em vez de aceitar mais ordens ríspidas. Os dias vão-se passando com algum trabalho e mais umas pontas soltas que deixo para os serões. A parte boa é que me consigo deitar cedo e ficar a ler na cama até adormecer de cansaço. É verdade que os primeiros foram os mais difíceis, com especial incidência n'O dia. Mas de qualquer modo, não tenho encontrado coisas para contar no blogue. Ou se tenho, acumulo os drafts. Há alturas da vida em que só escrevemos para dentro - as frases a ecoar na cadência dos passos a caminho da escola, à hora da saudade.
Não faço ideia de quem terá sido o inventor do modo câmara-de-filmar-para-pequenas-sequências-que-é-suposto-durarem-30-segundos-ou-pouco-mais que as modernas máquinas fotográficas digitais oferecem, mas, mesmo desconhecendo a identidade desse génio, queria daqui mandar-lhe uma saudação infinitamente grata e comovida. É que nos últimos dias, sobretudo à noite, antes de dormir, quando me atacam de forma mais violenta as saudades da filhota que já fez um ano, é a essas sequências-que-é-suposto-durarem-30-segundos-ou-pouco-mais que tenho recorrido. Elas estão na memória da máquina trazida na bagagem para Berlim e mostram-me a Alice a bater na janela quando nevou lá fora, a Alice fascinada com uma pilha de livros e a Alice a hesitar, na parte da biblioteca que fica no corredor, entre o Anthropology and a hundred other stories do Dan Rhodes e As Cartas a um Jovem Poeta do Rilke. São pequenos loops, gestos e olhares que se repetem uma e outra vez. Mas para mim, aqui tão longe, é o suficiente para mitigar esta falta que a acumulação dos dias vai tornando imensa.
Por exemplo, a actriz Q'Orianka Kilcher, Pocahontas no filme The New World, de Terrence Malick (visto esta manhã no Palast, fora de competição), que faz hoje 16 anos.
Felizmente, há sempre alguém que responde às nossas perguntas, mesmo as retóricas.
PS- Nem de propósito, há um filme germânico intitulado Sehnsucht a competir pelo Urso de Ouro, aqui na Berlinale. Será exibido na próxima quarta-feira, às nove da manhã.
Não tenho escrito sobre a cidade, como prometia uns posts abaixo, porque fui tomada por uma valente dor de garganta. E as dores de garganta são iguais em todas as longitudes.
Ontem à noite, nevou muito em Berlim. Os passeios ficaram brancos e havia pegadas negras como pistas na floresta. Depois do último filme, caminhando para o hotel, a dança dos flocos à luz dos candeeiros tinha qualquer coisa de mágico. Pairavam no ar um segundo e depois eram arrastados pelo vento, em turbilhões. Gostava de levar alguma desta neve para a Alice. Gostava que ela visse esta brancura e percebesse que é igual à outra, à que vimos cair por breves minutos do céu de Lisboa. Mas na natureza da neve, como na de tantas coisas igualmente belas, não está a difícil arte da permanência. E por isso na bagagem seguirá apenas o prometido teddy bear berlinense.
Este blogue faz hoje um ano e assinalar isso faz parte do conjunto de convenções que regem a blogosfera. *
Não posso dizer que conviva bem com todas as convenções, mas também não lhes tenho uma alergia crónica. Por exemplo, gosto do meu ginecologista (também) por causa de uma convenção que ele tem com o meu seguro de saúde. E cedi à mais comum das convenções. Casei-me, assinei um contrato diante de testemunhas, umas que escreveram o seu nome por baixo do meu e do meu marido e outras que apenas cumpriram o seu papel estando presentes. Pensei sempre que o casamento não me ia fazer mal, que não ia alterar o que me passava pela cabeça, o que se sentia aqui por casa, os projectos para o futuro e a quantidade de roupa para pôr na máquina. Em tom de brincadeira, até escrevi, no livrinho que nos serviu de aliança e que distribuímos depois aos convivas, que tinha casado por interesse e não mentia. Porque estava grávida, era preciso deixar o quinto andar alugado sem elevador, era preciso vender uma casa e comprar outra. Era tudo mais fácil se nos casássemos. Como somos um homem e uma mulher, pudemos fazê-lo sem dificuldades e até escolhemos quando. Casámos no dia 27 de Agosto de 2004, o dia em que casei também eu os anos, completando 27. Foi mais ou menos assim que consegui convencer o pai da Alice a alterar outra vez o seu estado civil. E como sou rapariga de festas, não me neguei a um vestido e a uma comemoração a dois tempos. Todos os pretextos são bons quando se trata de celebrar o amor.
Não sei o dia exacto em que aconteceu, mas fui percebendo aqui e ali, que afinal muita coisa mudou desde então. Não mudou o que nos passava pela cabeça, o que se sente aqui por casa, os projectos para o futuro e a quantidade de roupa para pôr na máquina (o.k, desde que a Alice nasceu, a máquina passou a trabalhar muito mais, mas acho que se não nos tivéssemos casado, isso acontecia do mesmo modo). Onde mudaram as coisas então? Na cabeça, mais precisamente nos olhos, dos outros. Porque se é verdade que para mim o casamento não tem grande importância, ele não deixa de ser uma convenção e ter um valor para os outros. Os sociólogos sabem explicar isto muito melhor. Para mim, e creio que para o meu marido (a etiqueta também é outra), o casamento teve importância naquele dia de festa e no dia da escritura de venda da minha casa. Também deu jeito no dia em que a Alice foi registada: assim bastou que um de nós se deslocasse à Conservatória, e regressasse sozinho ao local do crime, perdão, do matrimónio contraído. Isto tudo para dizer o quê? Que eu pensava que passava incólume pela convenção e enganei-me. Não passei porque os olhos dos outros me condicionam. É assim a vida depois da Modernidade (melhor, apesar de tudo, do que a antecedeu).
Agora encontro-me outra vez enredada nas convenções. O calendário diz que a Alice completa um ano de vida no próximo sábado. Para mim, não é assim tão especial essa data. Acho muito mais propício aos festejos o dia em que se completam os nove meses, momento a partir do qual se passa sempre mais tempo fora do útero que dentro dele. Sou forçada a comemorar o primeiro aniversário da Alice porque não posso simplesmente ignorá-lo. Quando a Alice tiver três anos e mais (talvez mesmo aos dois, não sei) imagino que seja diferente, terá com certeza consciência da festa, saberá melhor o que fazer quando vir uma vela acesa e toda a gente a cantar. Por agora, não tenho dúvidas, o aniversário é única e simplesmente um capricho dos pais (e outros parentes) que comemoram alegremente 365 dias de vida do rebento. Pois muito bem, ficamos felizes por estarmos juntos há tanto tempo. Acontece que no próximo sábado não estamos efectivamente juntos: eu e a Alice estamos em Lisboa, o pai está em Berlim. E assim não me parece haver motivo de comemoração. Mas acontece aquilo que já aqui escrevi de várias formas: um filho não é só nosso filho, é neto, sobrinho, amigo de outros. E é refém de todos esses que estarei daqui a dois dias. Refém das suas alegrias e das suas recordações (provavelmente até de momentos que talvez não me apeteça recordar, como o parto, e outras angústias e delícias que mantivemos secretamente nossas). Adivinho que este dia me será mais penoso do que aquele em que a Alice foi pela primeira vez para a escola.
* da definição, segundo a Priberam: aquilo que, tacitamente, se considera admitido nas relações sociais;
Eu sei que tenho estado ausente deste blogue. Eu sei que o pouco tempo livre tem sido dirigido para outras escritas, outros lugares, outras prioridades. Eu sei que às vezes sinto falta disto aqui, deste conforto e desta atmosfera, e que me arrependo mil vezes dos posts que deixei perdidos num bloco de notas ou no lado mais volátil do meu cérebro. Mas agora estou a milhares de quilómetros de distäncia, lá fora faz um frio de adormecer os dedos (embora näo neve), e eu estou num centro de imprensa, em frente ao computador, já consumido pelas saudades. Pois, pois. Once a portuguese... Na memória da máquina digital, uma fotografia da Alice em cima do camiäo consola-me. O teclado tem as letras em sítios diferentes e um problema com o mais ibérico dos acentos. Mas sobrevive-se. Há palavras para escrever, filmes para ver e uma cidade para (re)descobrir nos intervalos. Vou tentar ser mais assíduo, agora. Como quem galga meia Europa num só post.
Ainda lhe falta muito equilíbrio, apesar de ir onde quer servindo-se do camião (ora montada em cima dele, ora empurrando-o). Antes de andar, vai ter que ser capaz de fazer o tradicional tem-tem. Consegue essa proeza muito esporadicamente e pelo tempo máximo de dois segundos. Tudo o resto são ilusões de óptica e as pernas bem encostadas a qualquer coisa.
Andámos meia semana a sonhar com uma viagem os três. O pai da Alice tem que ir a Berlim passar 12 dias a ver cinema, e como vai estar longe no aniversário da Alice, tudo se resolvia se fôssemos as duas com ele. A autorização final para a cobertura jornalística da coisa demorou tanto tempo que já tínhamos desistido da ideia e até comprámos meia-dúzia de coisas para a festa (que é mais nossa do que do bebé que ainda não sabe o que é isso de fazer anos). Sexta-feira, a agenda virou-se outra vez ao contrário. Folgas interrompidas, malas à vista, meias quentes: o pai vai mesmo viajar e nós o que é que fazemos? De máquina de calcular em riste, e depois de um passeio virtual pelas companhias aéreas, percebemos que um bebé paga menos mas não voa de graça, que as temperaturas vão descer outra vez, que o pai vai estar em frente aos ecrãs durantes todas as horas de vigília da Alice. Seria um desperdício de dinheiro e energia irmos todos em família, mesmo com o apoio local de uma família luso-germana, bilingue. Ficou prometida, para a Primavera, uma grandiosa excursão do clã a solos nunca pisados por nenhum de nós (embora sejam poucos os solos pisados pelo bebé ainda em treino para os primeiros passos). Vimos Berlim por um canudo, mas elegemos a terra da Miffy como próximo destino: bicicletas, tulipas, parques e museus não serão demais para nós. (O Red Light District e os Coffee Shops é que terão que ficar para uma segunda oportunidade.)
Quando espreitei o meu favorito dos sites que adivinham o futuro (a par deste e deste), reparei que a descida da temperatura se acentuava no domingo ao lado do ícone da nuvem. Não pensei que fosse nevar, mas foi o suficiente para ligar todos os aquecedores da casa, abrir as portas para espalhar o calor e agendar um dia de trabalho, chá e mantas. Aconteceu-nos sair à hora do almoço para apanhar um envelope urgente, chegado do Porto à Gare do Oriente e arriscarmos tentar comer no shopping em frente. Aconteceu-nos que o restaurante escolhido tivesse janelas e que pudéssemos ver a neve com o pavilhão atlântico ao fundo. Também nos aconteceu não termos máquina fotográfica, mas para estas coisas a memória funciona bem e a neve voltou quando já estavamos em casa e pudemos registá-la para a posteridade em pequenos filmes (já que nas fotografias não é evidente). O que eu acho espantoso não é só que tenha nevado em Lisboa, cumprindo-se finalmente os vaticínios diários do pai da Alice («isto hoje vai nevar», dia-sim, dia-não, desde que estejam menos de 15º Celsius). O que eu acho espantoso é que tenha nevado num domingo, entre as três e as quatro da tarde ou coisa que o valha. Se fosse de madrugada, ninguém veria. Se fosse a um dia de semana, a probabilidade de tantas pessoas repararem seria menor (mesmo que os avisos circulassem por telemóvel, como circularam, aliás, saturando o ar por onde caíam os flocos gelados). São inesperadas conjugações deste tipo que me enchem de uma alegria infantil. E que contagiam a verdadeira infanta cá de casa.
Riu-se sobretudo por nos ver divertidos, a correr de janela em janela e apontar para a rua. Gostou tanto da neve quanto da fita do estore e de beber água por um copo como as pessoas crescidas.
O nosso bairro é sobretudo uma rua comprida, de passeio estreito, com cafés porta sim-porta não, meia dúzia de mercearias, uma loja chamada Campeão dos Preços. E o Pantufa. O Pantufa é da rua, do bairro, de todos os miúdos das duas escolas, e o passeio é todo dele. Gostava de o ter apanhado deitado ao comprido, ao sol, com o focinho caído sobre o lancil, a apontar para a estrada. Saiu-me este retrato tirado quase em frente ao café que nos calhou na rifa e onde somos tratados ora com uma indiferença rezinguenta, ora com um excesso de intimidade. Hoje fui lá mais cedo do que o habitual. A Dona Isabel, que estava bem-disposta, trata-me pelo diminuitivo e pergunta-me, enquanto põe o café que não pedi em cima do balcão, «por cá, tão cedo?». Consegue sempre arrancar-me justificações: que sim, que tinha umas coisas para tratar na rua logo de manhã, que tinha que aproveitar bem os dias porque daqui a nada era hora de apanhar a Alice de novo. «Faz bem, se começa a ficar na cama, no quentinho, a enroscar-se, não faz mais nada.» Esta mulher, o marido dela, a filha, e o bairro inteiro, imaginam-me o Pantufa das donas de casa. Em casa o dia todo, ainda por cima sem a filha, ainda por cima manda passar a roupa fora, ainda por cima não vem fazer sala para o café. Lá lhe digo, não sei ainda porquê, que sou eu que visto a Alice todas as manhãs, enquanto o pai se veste a si mesmo, que lhe preparo a mochila, que a vou buscar o mais cedo possível porque não gosto que fique demasiadas horas na escola, que preciso de trabalhar no intervalo. Saio, mal disposta com o café, porque queria antes uma meia-de-leite e não tive tempo de a pedir. E muito irritada com esta minha mania crónica de me explicar a quem não preciso que me entenda.
À entrada da escola, mesmo por cima do banco corrido de madeira onde os pais vestem os casacos aos filhos, há um placard onde se afixam trabalhos dos meninos das várias salas. Está agora patente uma exposição de trabalhos com variações a partir deste livro (colagens de fios magrinhos de lã e frases ditadas à educadora). Sempre cheia de saudades à hora do lanche, ainda não pude dedicar tempo suficiente à apreciação de cada obra. No entanto, num primeiro olhar, interessei-me por duas. Uma delas, a da Diana que diz que se fosse muito magrinha cabia dentro dos livros. A outra, não me lembro do que dizia, para mim ficou só a cintilar a assinatura (vinda ela, essa sim, directamente das lombadas da nossa estante): "Ruben A."
- Pai... - ... - Paiiiiii! - Sim, filha. - Tu e a mãe às vezes dão beijinhos na boca? - Sim, damos. - Porquê? - Porque o pai e a mãe gostam muito um do outro. - Mas... Na boca? - Sim. - Yuk! Que nojo!