Deste lado do espelho

Alice já mora aqui [caixa do correio: pais_da_alice@yahoo.com]

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

 

Medições e presentes

O pai da Alice gosta de números. Não saía do consultório do obstetra sem perguntar quanto é que media a filha, quanto podia pesar. O vício académico estendeu-se a mim no que respeita à contagem do tempo. Apesar de uma boa parte da vida me passar ao lado dos calendários - não decoro datas importantes para além dos aniversários das pessoas - com a gravidez passei a olhar para a passagem do tempo de um modo diferente.

Agora, a semana é outra vez a nossa unidade mínima de contagem (já foram as horas e os dias). Quando se completou a primeira, chegou pelo correio o primeiro presente dos pais. Não haverá muitos mais nos tempos que se aproximam. Há uma caixa cheia no armário para se ir gastando, não é preciso afogar o bebé em brinquedos. Esta boneca é uma oferta especial, única, feita à mão, nascida logo depois da Alice, convenientemente abraçada pela E.. Um presente vindo da blogosfera, como a Alice foi também um pouco.
 

Porquê Alice?

Porque é um nome claro. Porque se escreve da mesma maneira em várias línguas. Porque era o nome da mãe do meu avô que era brasileira. Porque invoca a ficção. Porque nos lembra a Francesca Woodman de que falámos naquele domingo à hora do chá. Porque a Alice do Carroll joga com a linguagem, com todas as possibilidades do mundo, e também se move num tabuleiro de xadrez.



Porque é uma menina e consegui assim convencer o pai, à porta do centro de ecografias, radiante com a confirmação da sua certeza.
 

Sonhos

Eu sei que ela sonha. Vem nos livros. E às vezes, quando a espreito durante o sono, apercebo-me do movimento dos seus olhos sob as pálpebras. Rapid eye movement. Ela sonha, nunca duvidei. A questão é outra: sonha com o quê? Com auréolas castanhas e mamilos gigantes? Com o tecido que forra o berço? Com o rosto desfocado do pai? Ou será com o interior da barriga da mãe: visões uterinas, memórias do tempo em que o seu corpo estava preso a outro corpo, bailados suspensos no líquido amniótico?

domingo, fevereiro 27, 2005

 

Versos pequeninos (enquanto não chega a primavera)



A cada sopro do vento
muda de folha
a borboleta no salgueiro

***

Calou-se o sino
O que chega a mim agora é o eco
das flores

***

Brisa ligeira
A sombra da glicínia
estremece

***

A uma papoila
deixa as asas a borboleta
como recordação



- Haikus de Matsuo Bashô in «O Gosto Solitário do Orvalho seguido de O Caminho Estreito» (versões de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim)
- Borboletas de tule in cortinas diáfanas do quarto da Alice
 

Sem lágrimas, sem palavras

Destroem qualquer compêndio, arrasam sem argumentos a racionalidade pura e dura: os sons agudos, ritmados, que crescem na outra ponta da casa, no outro lado do sono, e despertam os ouvidos da mãe (e do pai) para as verdades, não ditas ainda, do bebé.

sábado, fevereiro 26, 2005

 

Encontro



Hoje a Alice viu, pela primeira vez, outro bebé: o Gabriel, filho do João e da Catarina, amigos que moram em Évora (amigos do peito, «amigos até debaixo de água»).
Por enquanto, a Alice e o Gabriel partilharam apenas o sono. Em breve partilharão brincadeiras.
 

protovit

As vitaminas são dadas gota a gota: seis gotas a cair na boca aberta da Alice (e às vezes ao lado, bochecha abaixo). Seis gotas amarelas, muito amarelas, como amarela há-de ficar a língua da bebé. Seis gotas que cheiram a banana, uma banana impossível, madura e artificial, cheiro de banana que é mais cheiro de banana que o cheiro das bananas verdadeiras, aroma criado de certeza por um farmacêutico que no fundo de um laboratório terá dito, um dia, para os seus botões: «eureka, é assim que vou enganar os meninos que não gostam de remédios».
Não foi mal pensado, diga-se. O estratagema funcionou e continua a funcionar, atravessando as sucessivas gerações. Vejam bem: até a minha filha, tão pequena que ainda não sabe o que é uma doença (e menos ainda o que é um medicamento), gosta que se farta das gotas amarelas. Lambe os lábios, fica mais serena e estica a língua à espera de mais.
Quanto aos progenitores, eles podem perfeitamente sentar-se ao computador a escrever que as vitaminas têm o cheiro impossível de uma banana artificial e mais não sei o quê, mas ao abrir o frasquinho, antes mesmo de o inclinar sobre a boca aberta da filha, aquele aroma traz-lhes a evocação da sua própria infância. É isso que os desarma. Experimentá-la, agora, à enraizada memória infantil, tem qualquer coisa de ciclo que se fecha, que se completa, que se cumpre. E também eles ficam com os sentidos esticados, à espera de mais.

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

 

Duas semanas

A Alice nasceu há precisamente duas semanas e hoje recebeu, talvez para comemorar a data redonda (quer dizer, mais ou menos redonda), um belo desenho enviado pelo Pedro Vieira:



Estamos muito gratos pela oferta, Pedro.
 

Choros

O choro, como todas as formas de linguagem, tem as suas modulações, as suas variantes, os seus significados implícitos ou sub-reptícios. Vem nos livros: ao fim de uns dias, os pais começam a descodificar o choro do seu bebé. Sabem quando é sinal de fome, de desconforto, de dor ou de mimo. E o bebé, lá no fundo do berço, choraminga ou grita a plenos pulmões, sabendo que os pais estão à escuta atrás da porta (ou então noutra sala, às vezes distante, tornada próxima através desse cordão umbilical sonoro que é o intercomunicador). O bebé que primeiro chorava só quando tinha necessidade, começa depois a afinar a sua arma, a testar os pais, a chamá-los mesmo quando não é preciso, só para ver se eles vêm. E os pais umas vezes vêm; outras não. Há regras não escritas que começam a formar-se, acordos tácitos, tratados de Tordesilhas mais ou menos rígidos: até aqui podemos ir, daqui para ali já não. De cada vez que o bebé chora, os pais olham um para o outro, apuram o ouvido como ornitólogos treinados para ouvir o canto da ave rara, interpretam o ritmo, a frequência, os decibéis e só então esboçam respostas, planos de acção, estratégias. «O que é que achas?», «É choro de sono e mimo, mais dois minutos e adormece», «E se continua?», «Não continua», «Mas e se continua?», «Se continua, vou lá eu». Entretanto, do quarto chega aquele clic do intercomunicador que precede o silêncio. O bebé calou-se. Adormeceu. Exausto, talvez, do esforço que para ele representa falar sem palavras, para os pais ainda aprendizes dessa sua fala não verbal.

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

 

Vidros duplos

Um impulso mais forte do que nós: protegê-la. Colocar entre ela e o mundo as barreiras necessárias contra o frio e o calor e a fome e a sede e a maldade dos homens e o cinismo dos outros e os acasos cruéis e as leis da probabilidade e o prego ferrugento escondido na areia e todas as coisas que podem feri-la, coisas para lá do nosso controlo, coisas que nos escapam. Do lado de lá dos vidros duplos, a vida ameaçadora espera. Mas a vida maravilhosa também. A vida, ponto final. Não adianta adiá-la nem temê-la.
 

O sorriso



Eu sei que foi involuntário (os outros, os sorrisos que surgem por vontade própria, só chegarão lá para a sexta semana de vida). De qualquer forma, saudemos o feliz acaso de a apanhar assim, sorridente sem prevenir e — coisa rara — de olhos abertos.
 

Certezas

Pelo que percebi nas duas últimas semanas e nos nove meses que antecederam tudo isto, o gráfico de certezas e dúvidas de cada um altera-se, provavelmente sem retorno, com a chegada de um filho. Não é que se tenha mais dúvidas e menos certezas ou que a proporção se inverta, são coisas que nos aparecem claríssimas nas ideias e outras em que sentimos que avançamos sem saber se vamos ou não tropeçar em cada passo.

Até agora espero ainda pela longa noite de insónia e dúvida, como espero pela longa noite em que a Alice chorará inconsolável (pareceu-me que ia ser ontem, mas acabou por adormecer duas horas mais tarde e um pouco de leite depois). As certezas, essas parecem chegar devagar, impondo-se como evidências. A primeira que me apetece registar é a certeza que tenho de que será a Alice, desde cedo, a escolher quem é. Não quero que se mascare antes de poder escolher a sua própria fantasia. Não quero que seja mais ninguém antes de ela mesma. A Alice, minha filha, filha do pai, neta dos avós, mas antes de tudo, uma pessoa pequenina. Disto, tenho a certeza.

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

 

Anunciação (2)


«Annunciazione», Sandro Botticelli (Uffizi, Florença)

Não foi como na Bíblia. Não houve anjo Gabriel, nem pomba do espírito santo, nem raio de luz divino, nem trombetas celestes.

Foi muito mais extraordinário do que isso. Isto é: foi humano. Uma simples ida à farmácia e na vinda, dentro de um envelope muito bem fechado, a boa nova:



Eu prometera à mãe da Alice não abrir o envelope. E não abri. Até porque sabia há vários dias (ou talvez mesmo desde o princípio) que ela estava grávida. De certa maneira, pelos ínvios caminhos da intuição, eu fui o anjo Gabriel de mim mesmo.
No regresso da farmácia, sem olhar para o relógio, parei no café do costume e saboreei a bica com um prazer novo, inexplicável. Não era euforia, aquilo, nem sequer a adrenalina dos grandes momentos. Era outra coisa: uma estranha tranquilidade, uma absoluta certeza de que o meu grande sonho estava prestes a ganhar forma, de que dentro do envelope estava o começo de uma história infinitamente bela.
Saí para a rua. A luz sobre Campo de Ourique tinha qualquer coisa de glorioso. Dentro do meu bolso, sabia-o, ardia a verdade maior da minha vida. Atravessei o bairro, meti a chave na porta do prédio e subi, quase a correr, os cinco andares até casa. Degrau a degrau, antecipei o que aconteceria. E depois, lá em cima, aconteceu o que tinha antecipado. Dez minutos mais tarde, ligava para Paris. Do outro lado da linha, o meu irmão, ainda estremunhado. Era a manhã do seu 28.º aniversário. Na minha voz, aqui em Lisboa, a melhor prenda que alguma vez lhe ofereci: «Vais ser tio, Manel, vais ser tio».
 

Anunciação

Os testes de gravidez mais fiáveis são os que se fazem na farmácia. Foi o que pensei e por isso não comprei daqueles kits para usar em casa. Lembro-me bem do anúncio do Predictor, um dos primeiros desses testes domésticos a aparecer no mercado, eu não devia ter mais de dez anos. Uma mulher olhava melancólica para uma janela embaciada e desenhava um ponto de interrogação. Fascinava-me porque não me deixavam que escrevesse nos vidros embaciados com os dedos. Nunca percebi porquê, diziam-me que sujava o vidro, mas via as marcas desaparecerem quando desaparecia também o nevoeiro sobre a janela ou espelho da casa-de-banho.

Não comprei um teste Predictor, nem olhei para o espelho com dúvidas. O pai tinha a certeza de que eu estava grávida e eu negava-o há quase quatro dias. Nessa manhã, iam entregar-nos em casa duas estantes. O teste devia ser feito de manhã, era preciso ir à farmácia, levar uma amostra de chichi, e esperar um pouco pelo resultado. Acho que tirámos à sorte quem ia. Se não foi assim, podia ter sido. Saiu o pai de casa, com destino à farmácia que fica em frente do cinema abandonado. Sentei-me no sofá e esperei que chegasse. Demorou um bom bocado, terá parado para um café, trazia esse gosto na boca. Sentei-me no sofá e pela primeira vez pensei a sério nesta gravidez. Pensei que o pai trazia já no bolso o resultado do teste. Pensei que talvez até o tivesse espreitado à revelia do acordado. Pensei que não era preciso teste nenhum, que afinal já sabia o resultado. Estava inexplicavelmente calma quando ele chegou ofegante ao cimo do quinto andar.

Pouco depois, chegaram as estantes, o pormenor que faltava para a nossa casa lá do alto ficar pronta.

terça-feira, fevereiro 22, 2005

 

A boneca



Foi amor à primeira vista. Quando os pais viram esta boneca da Rosa Pomar (a #127), decidiram logo que havia de ser ela a primeira prenda para a Alice.

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

 

O parto (2)

Lembro-me do médico dizer «vamos já para a sala de partos».
Lembro-me do olhar que troquei com a mãe, um olhar que dizia «é agora, é agora, é agora».
Lembro-me do trajecto da cama pelos corredores e eu atrás, junto ao médico, a sentir uma mistura de euforia com perplexidade, um estremecimento que imagino similar ao dos heróis gregos, antes das batalhas decisivas.
Lembro-me da pequena sala onde o obstetra me disse «agora dispa-se todo e vista esta roupa», eu de cuecas e meias a vestir um fato cirúrgico verde, a pôr a touca com elástico, a colocar a máscara à frente da boca e do nariz.
Lembro-me de respirar fundo antes de entrar na sala de partos, mais pequena do que a da minha imaginação.
Lembro-me de alguém me apontar um sítio à cabeceira da cama: «fique aí e não se mexa!»
Lembro-me do relógio enorme pendurado na parede, com ponteiros enormes e minutos enormes.
Lembro-me da posição do médico e dos assistentes, de cada ordem e de cada gesto.
Lembro-me de pensar: «agora queria incentivá-la, dar-lhe força, mas se falar ainda a desconcentro, se falar ainda me sobreponho à voz do enfermeiro Jaime e ela baralha-se, o melhor calar-me» (e calei-me)
Lembro-me do esforço imenso que ela fazia e da dificuldade que tinha em colocar a força onde era suposto colocá-la.
Lembro-me de ver o obstetra com a ventosa na mão, a dizer «agora é só mesmo mais um bocadinho».
Lembro-me do desalento do obstetra quando a ventosa se soltou.
Lembro-me de um segundo, só um segundo, de hesitação no seu olhar e da voz dele: «ó pá, não me digas que viemos até aqui e agora temos que ir para cesariana!»
Lembro-me de pensar: «e agora?»
Lembro-me da energia com que o obstetra se lançou de novo ao trabalho imenso de trazer a minha filha ao mundo.
Lembro-me de sentir que o momento se aproximava.
Lembro-me de olhar fixamente para o lugar exacto onde sabia que a cabeça da Alice apareceria.
Lembro-me da tesoura da episiotomia, cheia de sangue (e do espanto pelo facto dessa visão não me impressionar).
Lembro-me do esforço redobrado da mãe, do seu corpo contorcendo-se.
Lembro-me do exacto instante em que soube que a Alice estava bem e quase ali, quase nascida.
Lembro-me da comoção avassaladora que me atingiu logo depois, repentina, vinda não sei de onde, a virar-me do avesso como nunca nada me virou.
Lembro-me de chorar convulsivamente.
Lembro-me de um súbito silêncio (mas se calhar não houve esse silêncio, se calhar imaginei-o mais tarde).
Lembro-me do último esforço, dos últimos puxões.
Lembro-me da voz do médico: «vai sair, vai sair».
Lembro-me de ver a cabeça da Alice e depois o corpo todo.
Lembro-me de ficar numa espécie de levitação imóvel: só alegria pura, excessiva, violenta.
Lembro-me de olhar para a mãe e de ela olhar para mim (um olhar só nosso).
Lembro-me do enfermeiro que já me perguntara, há uns minutos, se eu estava bem e agora me punha a mão sobre o ombro.
Lembro-me de ver que na sala ao lado limpavam e vestiam a nossa filha.
Lembro-me de a trazerem, olhos abertos, para os nossos braços.
Lembro-me desses olhos abertos, os olhos da Alice.
Lembro-me de tudo, com infinita minúcia e nitidez.
Lembro-me.
Lembro-me.
Lembro-me.
E nunca esquecerei.
 

O parto

Também é importante que fique registado, enquanto ainda nos lembramos bem.

Fui internada, muito grávida, na quinta-feira, dia 10, para se iniciar o processo de indução do parto. Nessa noite aplicaram-me um gel e algo mais. A partir das cinco da madrugada comecei a sentir umas moínhas, tipo dores menstruais, mas muito leves, deu até para fechar os olhos um bocadinho. De manhã, pelas 9h00, quando o médico chegou, já tinha o colo do útero permeável a três dedos. Às 9h30 deram-me oxitocina intravenosa, rebentaram-me a bolsa de águas e começaram as contracções, logo muito a sério, de dois em dois minutos, às vezes menos. Lembrei-me do curso de preparação para o parto e fui suportando as dores, tentando não me descontrolar. O pai diz que consegui. Lá para as dez e tal vieram colocar o catéter da epidural (é difícil ficar quieta no meio das contracções, mas vale muito a pena), só às onze e qualquer coisa é que o médico deu ordem para que se iniciasse a analgesia. Senti mais duas contracções e a terceira já com muito menos incómodo, depois foi um alívio. Entretanto, a cabeça da Alice continuava alta e ainda sem estar completamente em posição. O médico não tinha a certeza de conseguir fazer o parto vaginal.

Esperámos mais um pouco e a Alice fez «duas desacelerações cardíacas valentes». O médico disse que era da descida e corremos para o bloco. Nessa altura, já sabia que tinha que ser usada a ventosa, mas não estava assustada com isso. Quando chegámos ao bloco, do outro lado do corredor, tinha perdido as contracções. Puseram de novo a oxitocina a correr e o médico fez a rotação da cabeça da Alice com a ventosa. Não conseguiu à primeira porque não coordenei bem a força com ele, mas foi à segunda - e a parte da ventosa não custou nada. O que custou mesmo foi ter que puxar, eu não tinha vontade de fazer força e fiquei baralhada quando a perneira esquerda se desconjuntou e foi preciso montá-la de novo. Não sabia bem quem me estava a dar instruções e julgava que ainda não tinha começado o período expulsivo. Quando percebi que era a hora, pensei mesmo que não era capaz. O ombro custou bastante a passar, sei disso porque ouvi o médico dizer «ombro». Antes disso, uma enfermeira chamada Alice deixou-me descansar um pouco. O médico pediu pressão sobre uma zona de que não me lembro o nome e as duas enfermeiras, a Alice e a outra, encostaram-se sobre a minha barriga. Não doeu mais por isso. Ouvi um enfermeiro dizer-me que não desistisse e levei esse apelo muito a sério. Finalmente percebi que ela ia sair e ouvi o pai chorar. Vi vagamente o corpo da Alice cá fora e respirei fundo. O enfermeiro Jaime disse «Nasceu. É meio-dia e trinta e quatro.» Tinha acabado. Sentia-me muito tonta e exausta, não percebia bem o que se estava a passar. Pus a mão na barriga e encontrei-a vazia. Enquanto o médico tratava da placenta e dos outros acabamentos, olhei para a sala ao lado e vi um grupo de enfermeiros e auxiliares debruçados sobre uma mesa. Parecia que vestiam um bebé, parecia o body da Alice. Ouvimos chorar e o enfermeiro Jaime veio dizer-nos que era o nosso bebé. Pouco depois, trouxeram-me a Alice. Acho que o pai já lhe tinha pegado. Ainda deitava líquido verde pela boca, disse-lhe «olá, filha» e levaram-na, estava ali muito frio, precisava de ser aquecida.

Quase três horas depois, voltámos a encontrarmo-nos os três, já no quarto. A Alice choramingava sem grande convicção. Queríamos pegar-lhe e não sabíamos se podíamos. O pai foi informar-se e a enfermeira disse-lhe que a tirasse do berço e a entregasse à mãe.

Foi assim, dos braços do pai, que te recebi pela primeira vez.

domingo, fevereiro 20, 2005

 

Uma questão umbiguista

Se até a direita de Pedro Santana Lopes e Paulo Portas caiu hoje, com estrépito, nas eleições legislativas, por que não haveria de cair o que restava do cordão umbilical da Alice? Caiu, sim senhor. E caiu muito bem.

sábado, fevereiro 19, 2005

 

Sinopse do dia de ontem


sexta-feira, fevereiro 18, 2005

 

Médicos

De repente, deixamos a consulta semanal com o obstetra, esse homem que passamos a quase amar por nos ter acompanhado durante quase nove meses e ter tirado de dentro de nós a filha enorme que não queria sair. De um dia para o outro, trocamos de médico e para o diálogo ficamo-nos com o pediatra. Ambos oscilam entre tratar-me por tu ou na terceira pessoa - «minha senhora», no caso do pediatra. Ambos são pessoas tradicionais, apologistas nas entrelinhas de famílias às direitas.

Com o primeiro, que conhecemos em Junho do ano passado, fomos criando uma relação de quase amizade, uma confortável intimidade que envolve mãe, pai, feto e o técnico. Foi em paz que nos entregámos a ele faz hoje uma semana. Depois de tudo, abraçou o pai e beijou a mãe.

Com o segundo, que me conhece desde os dois anos, há uma estranha distância que afasta o pai lá para o outro canto e reduz a mãe ao papel de principal interlocutor. A mãe torna-se apenas o suporte da alimentação e, a solo, de todos os cuidados. As explicações são detalhadas e no fim até temos direito a um sorriso. Saímos também em paz do consultório, a Alice dorme, a mãe e o pai com cara de quem merece um gelado depois da vacina.
 

Advertência

Não queríamos que fosse mais um, mas este é também um blogue sobre um bebé - em inglês baby blogue; em português, multiplicam-se blogosfera fora. Pode conter referências à gravidez que o precedeu e as questões fisiológicas que, repentinamente, dominam as preocupações, sonhos e pensamentos dos pais. Se este é um baby blogue, podemos falar aqui de maminhas, visitas que deitam perdigotos, pontos da episiotomia, novas modalidades de cocós e outros assuntos com mais ou menos odor. Fica o aviso à navegação.

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

 

Depois de mamar



Depois de mamar, a Alice parece sempre um pequeno buda satisfeito.

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

 

in utero, ex utero

Cá fora, ela enrola-se toda como se enrolava lá dentro.
Cá fora, ela mexe os pés como mexia lá dentro.
Cá fora, ela tem soluços como tinha lá dentro.
Cá fora, ela fica alerta como ficava lá dentro.
Mas também há diferenças: agora, por exemplo, vemos-lhe a cara de êxtase, depois de mamar, enquanto lá dentro o seu rosto era uma incógnita.
Por vezes chega a parecer-me que ela própria julga não ter ainda nascido. Aliás, basta encostar-se à mãe, sentindo a pulsação e as formas únicas do colo materno, para voltar a assumir posições fetais.
A verdade é esta: para ela (e para nós), estes primeiros dias são uma espécie de limbo.
Ténue, muito ténue, a fronteira entre o estado latente e o estado lactente.

terça-feira, fevereiro 15, 2005

 

O tamanho dos dias

Ainda sabemos escrever. Havemos de voltar aqui quando nos habituarmos aos dias enormes e pequenos, partidos em múltiplos pedaços. Deliciosos, todos. Extenuantes, a maior parte.

domingo, fevereiro 13, 2005

 

Regresso a casa


sábado, fevereiro 12, 2005

 

Breve filme do (glorioso) dia de ontem



07:45 - Este é o quarto 2.12 do Hospital CUF Descobertas, onde os pais ficaram de véspera, em preparação (física, a da mãe; psicológica, a dos dois) para o parto induzido, conversando muito e dormindo quase nada (o pai aproveitou ainda para reler, com entusiasmo febril e de um fôlego, a «Alice no País das Maravilhas» de Lewis Carroll).





08:10 - Depois de um pequeno-almoço comido à pressa, na cafetaria do hospital, o pai desentorpece as pernas, enche o peito de oxigénio e constata que paira no ar uma luz belíssima, muito leve, sinal de que tudo vai correr bem lá em cima, no segundo piso.





08:22 - Regresso ao quarto. É neste berço transparente que a Alice, dentro de umas horas, ficará a dormir.





08:46 - O CTG — aparelhómetro que mede e regista os sinais vitais da Alice, bem como a intensidade das contracções da mãe — está a trabalhar incansavelmente há quase dez horas (tenho a certeza de que o som ritmado dos batimentos cardíacos não nos sairá da cabeça por muitos dias).





09:25 - Começam, a sério, as contracções. Apesar das dores intensas, a mãe não chora, não grita, não faz cenas. O curso de preparação para o parto sempre serviu para alguma coisa (obrigado, Isabel).





09:30 - O obstetra decide acelerar as coisas, dizendo que o colo do útero já está permeável a três dedos. Ministrada através do soro, a oxitocina vai aumentar a frequência das contracções (e as dores). Uma hora mais tarde, entra uma médica que faz o catéter para a epidural. Cerca das onze da manhã, com seis centímetros de dilatação, chega a analgesia e a mãe pode, finalmente, respirar de alívio.





12:00 - A cabeça da Alice teima em não descer. A dilatação está completa. O obstetra faz tudo para evitar a cesariana. De repente, depois de uma descida brusca da bebé, o CTG regista duas bradicárdias (queda acentuada dos batimentos cardíacos). «Vamos já para a sala de partos», diz o médico. [Esta parte da história, por motivos óbvios, não tem imagens e será contada noutro post, quando as emoções estiverem menos à flor da pele.]





15:34 - A Alice nasceu há precisamente três horas. Pela primeira vez desde o parto, depois do recobro da mãe e do aquecimento preventivo da filha, as duas estão juntas, perto uma da outra, enquanto o pai se comove por tudo e por nada.





15:40 - O primeiro colo a sério, com tempo para admirar a delicada beleza da nossa filha.





15:43 - Olhem bem para esta cara. Vínculo parental? Já sei muitíssimo bem o que isso é.

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

 

Foi hoje que a Alice passou para o lado de cá do espelho

Hospital da CUF Descobertas, 12h34, parto vaginal com recurso a ventosa, 49 centímetros, 3,335 kgs. Isto são os factos objectivos, as informações concretas que aparecerão nas cédulas.
O resto, sinceramente, não creio que possa caber nisto a que chamamos palavras.

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

 

Quase

As malas estão quase prontas há quatro semanas. São três. Um dia por outro, fomos acrescentando qualquer coisa, nesta ou naquela. Mais um creme, mais uma camisa de dormir, os livros. Ainda agora o Pai da Alice pôs o último na mochila - antes, perguntou se não valeria mesmo a pena levar o tabuleiro de xadrez.

As malas estão agora prontas, são três. Vamos sair os dois de casa dentro de minutos. A Alice ainda não sabe, mas está quase a nascer. Estamos quase a ser três.

 

Dia -1

A partir de amanhã, começa o mundo para ti. E recomeça o mundo para nós.

 

Espera

Era uma vez um futuro pai que primeiro contou os meses, depois as semanas, depois os dias, depois as horas, depois os minutos, depois os segundos, depois os décimos de segundo, depois os centésimos de segundo, depois os milésimos de segundo e por fim unidades de tempo ainda mais pequenas (impossíveis de medir a não ser com o único relógio infalível: o coração).

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

 

Alice

Era uma vez uma menina que não queria nascer.

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