Alice já mora aqui [caixa do correio: pais_da_alice@yahoo.com]
«Annunciazione», Sandro Botticelli (Uffizi, Florença)Não foi como na Bíblia. Não houve anjo Gabriel, nem pomba do espírito santo, nem raio de luz divino, nem trombetas celestes.
Foi muito mais extraordinário do que isso. Isto é: foi humano. Uma simples ida à farmácia e na vinda, dentro de um envelope muito bem fechado, a boa nova:

Eu prometera à mãe da Alice não abrir o envelope. E não abri. Até porque sabia há vários dias (ou talvez mesmo desde o princípio) que ela estava grávida. De certa maneira, pelos ínvios caminhos da intuição, eu fui o anjo Gabriel de mim mesmo.
No regresso da farmácia, sem olhar para o relógio, parei no café do costume e saboreei a bica com um prazer novo, inexplicável. Não era euforia, aquilo, nem sequer a adrenalina dos grandes momentos. Era outra coisa: uma estranha tranquilidade, uma absoluta certeza de que o meu grande sonho estava prestes a ganhar forma, de que dentro do envelope estava o começo de uma história infinitamente bela.
Saí para a rua. A luz sobre Campo de Ourique tinha qualquer coisa de glorioso. Dentro do meu bolso, sabia-o, ardia a verdade maior da minha vida. Atravessei o bairro, meti a chave na porta do prédio e subi, quase a correr, os cinco andares até casa. Degrau a degrau, antecipei o que aconteceria. E depois, lá em cima, aconteceu o que tinha antecipado. Dez minutos mais tarde, ligava para Paris. Do outro lado da linha, o meu irmão, ainda estremunhado. Era a manhã do seu 28.º aniversário. Na minha voz, aqui em Lisboa, a melhor prenda que alguma vez lhe ofereci: «Vais ser tio, Manel, vais ser tio».