Alice já mora aqui [caixa do correio: pais_da_alice@yahoo.com]
Os testes de gravidez mais fiáveis são os que se fazem na farmácia. Foi o que pensei e por isso não comprei daqueles kits para usar em casa. Lembro-me bem do anúncio do Predictor, um dos primeiros desses testes domésticos a aparecer no mercado, eu não devia ter mais de dez anos. Uma mulher olhava melancólica para uma janela embaciada e desenhava um ponto de interrogação. Fascinava-me porque não me deixavam que escrevesse nos vidros embaciados com os dedos. Nunca percebi porquê, diziam-me que sujava o vidro, mas via as marcas desaparecerem quando desaparecia também o nevoeiro sobre a janela ou espelho da casa-de-banho.
Não comprei um teste Predictor, nem olhei para o espelho com dúvidas. O pai tinha a certeza de que eu estava grávida e eu negava-o há quase quatro dias. Nessa manhã, iam entregar-nos em casa duas estantes. O teste devia ser feito de manhã, era preciso ir à farmácia, levar uma amostra de chichi, e esperar um pouco pelo resultado. Acho que tirámos à sorte quem ia. Se não foi assim, podia ter sido. Saiu o pai de casa, com destino à farmácia que fica em frente do cinema abandonado. Sentei-me no sofá e esperei que chegasse. Demorou um bom bocado, terá parado para um café, trazia esse gosto na boca. Sentei-me no sofá e pela primeira vez pensei a sério nesta gravidez. Pensei que o pai trazia já no bolso o resultado do teste. Pensei que talvez até o tivesse espreitado à revelia do acordado. Pensei que não era preciso teste nenhum, que afinal já sabia o resultado. Estava inexplicavelmente calma quando ele chegou ofegante ao cimo do quinto andar.
Pouco depois, chegaram as estantes, o pormenor que faltava para a nossa casa lá do alto ficar pronta.