Alice já mora aqui [caixa do correio: pais_da_alice@yahoo.com]
O choro, como todas as formas de linguagem, tem as suas modulações, as suas variantes, os seus significados implícitos ou sub-reptícios. Vem nos livros: ao fim de uns dias, os pais começam a descodificar o choro do seu bebé. Sabem quando é sinal de fome, de desconforto, de dor ou de mimo. E o bebé, lá no fundo do berço, choraminga ou grita a plenos pulmões, sabendo que os pais estão à escuta atrás da porta (ou então noutra sala, às vezes distante, tornada próxima através desse cordão umbilical sonoro que é o intercomunicador). O bebé que primeiro chorava só quando tinha necessidade, começa depois a afinar a sua arma, a testar os pais, a chamá-los mesmo quando não é preciso, só para ver se eles vêm. E os pais umas vezes vêm; outras não. Há regras não escritas que começam a formar-se, acordos tácitos, tratados de Tordesilhas mais ou menos rígidos: até aqui podemos ir, daqui para ali já não. De cada vez que o bebé chora, os pais olham um para o outro, apuram o ouvido como ornitólogos treinados para ouvir o canto da ave rara, interpretam o ritmo, a frequência, os decibéis e só então esboçam respostas, planos de acção, estratégias. «O que é que achas?», «É choro de sono e mimo, mais dois minutos e adormece», «E se continua?», «Não continua», «Mas e se continua?», «Se continua, vou lá eu». Entretanto, do quarto chega aquele
clic do intercomunicador que precede o silêncio. O bebé calou-se. Adormeceu. Exausto, talvez, do esforço que para ele representa
falar sem palavras, para os pais ainda aprendizes dessa sua
fala não verbal.