Alice já mora aqui [caixa do correio: pais_da_alice@yahoo.com]
De repente, deixamos a consulta semanal com o obstetra, esse homem que passamos a quase amar por nos ter acompanhado durante quase nove meses e ter tirado de dentro de nós a filha enorme que não queria sair. De um dia para o outro, trocamos de médico e para o diálogo ficamo-nos com o pediatra. Ambos oscilam entre tratar-me por tu ou na terceira pessoa - «minha senhora», no caso do pediatra. Ambos são pessoas tradicionais, apologistas nas entrelinhas de famílias às direitas.
Com o primeiro, que conhecemos em Junho do ano passado, fomos criando uma relação de quase amizade, uma confortável intimidade que envolve mãe, pai, feto e o técnico. Foi em paz que nos entregámos a ele faz hoje uma semana. Depois de tudo, abraçou o pai e beijou a mãe.
Com o segundo, que me conhece desde os dois anos, há uma estranha distância que afasta o pai lá para o outro canto e reduz a mãe ao papel de principal interlocutor. A mãe torna-se apenas o suporte da alimentação e, a solo, de todos os cuidados. As explicações são detalhadas e no fim até temos direito a um sorriso. Saímos também em paz do consultório, a Alice dorme, a mãe e o pai com cara de quem merece um gelado depois da vacina.