Deste lado do espelho

Alice já mora aqui [caixa do correio: pais_da_alice@yahoo.com]

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

 

O parto (2)

Lembro-me do médico dizer «vamos já para a sala de partos».
Lembro-me do olhar que troquei com a mãe, um olhar que dizia «é agora, é agora, é agora».
Lembro-me do trajecto da cama pelos corredores e eu atrás, junto ao médico, a sentir uma mistura de euforia com perplexidade, um estremecimento que imagino similar ao dos heróis gregos, antes das batalhas decisivas.
Lembro-me da pequena sala onde o obstetra me disse «agora dispa-se todo e vista esta roupa», eu de cuecas e meias a vestir um fato cirúrgico verde, a pôr a touca com elástico, a colocar a máscara à frente da boca e do nariz.
Lembro-me de respirar fundo antes de entrar na sala de partos, mais pequena do que a da minha imaginação.
Lembro-me de alguém me apontar um sítio à cabeceira da cama: «fique aí e não se mexa!»
Lembro-me do relógio enorme pendurado na parede, com ponteiros enormes e minutos enormes.
Lembro-me da posição do médico e dos assistentes, de cada ordem e de cada gesto.
Lembro-me de pensar: «agora queria incentivá-la, dar-lhe força, mas se falar ainda a desconcentro, se falar ainda me sobreponho à voz do enfermeiro Jaime e ela baralha-se, o melhor calar-me» (e calei-me)
Lembro-me do esforço imenso que ela fazia e da dificuldade que tinha em colocar a força onde era suposto colocá-la.
Lembro-me de ver o obstetra com a ventosa na mão, a dizer «agora é só mesmo mais um bocadinho».
Lembro-me do desalento do obstetra quando a ventosa se soltou.
Lembro-me de um segundo, só um segundo, de hesitação no seu olhar e da voz dele: «ó pá, não me digas que viemos até aqui e agora temos que ir para cesariana!»
Lembro-me de pensar: «e agora?»
Lembro-me da energia com que o obstetra se lançou de novo ao trabalho imenso de trazer a minha filha ao mundo.
Lembro-me de sentir que o momento se aproximava.
Lembro-me de olhar fixamente para o lugar exacto onde sabia que a cabeça da Alice apareceria.
Lembro-me da tesoura da episiotomia, cheia de sangue (e do espanto pelo facto dessa visão não me impressionar).
Lembro-me do esforço redobrado da mãe, do seu corpo contorcendo-se.
Lembro-me do exacto instante em que soube que a Alice estava bem e quase ali, quase nascida.
Lembro-me da comoção avassaladora que me atingiu logo depois, repentina, vinda não sei de onde, a virar-me do avesso como nunca nada me virou.
Lembro-me de chorar convulsivamente.
Lembro-me de um súbito silêncio (mas se calhar não houve esse silêncio, se calhar imaginei-o mais tarde).
Lembro-me do último esforço, dos últimos puxões.
Lembro-me da voz do médico: «vai sair, vai sair».
Lembro-me de ver a cabeça da Alice e depois o corpo todo.
Lembro-me de ficar numa espécie de levitação imóvel: só alegria pura, excessiva, violenta.
Lembro-me de olhar para a mãe e de ela olhar para mim (um olhar só nosso).
Lembro-me do enfermeiro que já me perguntara, há uns minutos, se eu estava bem e agora me punha a mão sobre o ombro.
Lembro-me de ver que na sala ao lado limpavam e vestiam a nossa filha.
Lembro-me de a trazerem, olhos abertos, para os nossos braços.
Lembro-me desses olhos abertos, os olhos da Alice.
Lembro-me de tudo, com infinita minúcia e nitidez.
Lembro-me.
Lembro-me.
Lembro-me.
E nunca esquecerei.


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