Deste lado do espelho

Alice já mora aqui [caixa do correio: pais_da_alice@yahoo.com]

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

 

O parto

Também é importante que fique registado, enquanto ainda nos lembramos bem.

Fui internada, muito grávida, na quinta-feira, dia 10, para se iniciar o processo de indução do parto. Nessa noite aplicaram-me um gel e algo mais. A partir das cinco da madrugada comecei a sentir umas moínhas, tipo dores menstruais, mas muito leves, deu até para fechar os olhos um bocadinho. De manhã, pelas 9h00, quando o médico chegou, já tinha o colo do útero permeável a três dedos. Às 9h30 deram-me oxitocina intravenosa, rebentaram-me a bolsa de águas e começaram as contracções, logo muito a sério, de dois em dois minutos, às vezes menos. Lembrei-me do curso de preparação para o parto e fui suportando as dores, tentando não me descontrolar. O pai diz que consegui. Lá para as dez e tal vieram colocar o catéter da epidural (é difícil ficar quieta no meio das contracções, mas vale muito a pena), só às onze e qualquer coisa é que o médico deu ordem para que se iniciasse a analgesia. Senti mais duas contracções e a terceira já com muito menos incómodo, depois foi um alívio. Entretanto, a cabeça da Alice continuava alta e ainda sem estar completamente em posição. O médico não tinha a certeza de conseguir fazer o parto vaginal.

Esperámos mais um pouco e a Alice fez «duas desacelerações cardíacas valentes». O médico disse que era da descida e corremos para o bloco. Nessa altura, já sabia que tinha que ser usada a ventosa, mas não estava assustada com isso. Quando chegámos ao bloco, do outro lado do corredor, tinha perdido as contracções. Puseram de novo a oxitocina a correr e o médico fez a rotação da cabeça da Alice com a ventosa. Não conseguiu à primeira porque não coordenei bem a força com ele, mas foi à segunda - e a parte da ventosa não custou nada. O que custou mesmo foi ter que puxar, eu não tinha vontade de fazer força e fiquei baralhada quando a perneira esquerda se desconjuntou e foi preciso montá-la de novo. Não sabia bem quem me estava a dar instruções e julgava que ainda não tinha começado o período expulsivo. Quando percebi que era a hora, pensei mesmo que não era capaz. O ombro custou bastante a passar, sei disso porque ouvi o médico dizer «ombro». Antes disso, uma enfermeira chamada Alice deixou-me descansar um pouco. O médico pediu pressão sobre uma zona de que não me lembro o nome e as duas enfermeiras, a Alice e a outra, encostaram-se sobre a minha barriga. Não doeu mais por isso. Ouvi um enfermeiro dizer-me que não desistisse e levei esse apelo muito a sério. Finalmente percebi que ela ia sair e ouvi o pai chorar. Vi vagamente o corpo da Alice cá fora e respirei fundo. O enfermeiro Jaime disse «Nasceu. É meio-dia e trinta e quatro.» Tinha acabado. Sentia-me muito tonta e exausta, não percebia bem o que se estava a passar. Pus a mão na barriga e encontrei-a vazia. Enquanto o médico tratava da placenta e dos outros acabamentos, olhei para a sala ao lado e vi um grupo de enfermeiros e auxiliares debruçados sobre uma mesa. Parecia que vestiam um bebé, parecia o body da Alice. Ouvimos chorar e o enfermeiro Jaime veio dizer-nos que era o nosso bebé. Pouco depois, trouxeram-me a Alice. Acho que o pai já lhe tinha pegado. Ainda deitava líquido verde pela boca, disse-lhe «olá, filha» e levaram-na, estava ali muito frio, precisava de ser aquecida.

Quase três horas depois, voltámos a encontrarmo-nos os três, já no quarto. A Alice choramingava sem grande convicção. Queríamos pegar-lhe e não sabíamos se podíamos. O pai foi informar-se e a enfermeira disse-lhe que a tirasse do berço e a entregasse à mãe.

Foi assim, dos braços do pai, que te recebi pela primeira vez.


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