Alice já mora aqui [caixa do correio: pais_da_alice@yahoo.com]
As vitaminas são dadas gota a gota: seis gotas a cair na boca aberta da Alice (e às vezes ao lado, bochecha abaixo). Seis gotas amarelas, muito amarelas, como amarela há-de ficar a língua da bebé. Seis gotas que cheiram a banana, uma banana impossível, madura e artificial, cheiro de banana que é mais cheiro de banana que o cheiro das bananas verdadeiras, aroma criado de certeza por um farmacêutico que no fundo de um laboratório terá dito, um dia, para os seus botões: «eureka, é assim que vou
enganar os meninos que não gostam de
remédios».
Não foi mal pensado, diga-se. O estratagema funcionou e continua a funcionar, atravessando as sucessivas gerações. Vejam bem: até a minha filha, tão pequena que ainda não sabe o que é uma doença (e menos ainda o que é um medicamento), gosta que se farta das gotas amarelas. Lambe os lábios, fica mais serena e estica a língua à espera de mais.
Quanto aos progenitores, eles podem perfeitamente sentar-se ao computador a escrever que as vitaminas têm o cheiro impossível de uma banana artificial e mais não sei o quê, mas ao abrir o frasquinho, antes mesmo de o inclinar sobre a boca aberta da filha, aquele aroma traz-lhes a evocação da sua própria infância. É isso que os desarma. Experimentá-la, agora, à enraizada memória infantil, tem qualquer coisa de ciclo que se fecha, que se completa, que se cumpre. E também eles ficam com os sentidos esticados, à espera de mais.