Alice já mora aqui [caixa do correio: pais_da_alice@yahoo.com]
Era quinta-feira, eu estava de folga do trabalho na livraria dos subúrbios e era o dia em que saía no jornal o texto do pai da Alice, por isso dormimos até mais tarde, no rés-do-chão alto junto à Praça do Chile. Acordámos com um telefonema de Espanha. A minha mãe dizia-nos que não nos preocupássemos com as notícias, que estava tudo bem com ela, que o atentado, um grande atentado, tinha sido em Madrid. Depois disse que tinha sido muito complicado, que tinha morrido muita gente, que o país inteiro estava em choque. Ligámos a televisão, ou o rádio, não me lembro agora, e chocámo-nos, também nós, com o que se passava na capital ao lado.
Há um ano não sabia que íamos sair daquela casa e morar em mais outra ainda antes desta, eu não sabia que ia sair daquele emprego e estar em mais outro antes da licença de maternidade. Há um ano, não sabíamos que dali a um ano a Alice faria um mês.
O choro desconsolado da Alice interrompeu o meu post. Deve querer comer outra vez. Não sabe que nasceu hoje um bebé chamado Gil. Não sabe o que se passou no ano passado numa estação de comboios em Madrid. Não sabemos as duas o que se passará daqui a um ano.