Alice já mora aqui [caixa do correio: pais_da_alice@yahoo.com]
sexta-feira, abril 29, 2005
Reuniões de família
No fim-de-semana passado foram duas. A primeira, no sábado ao almoço, em casa do Tio Carlos (tio-avô da Alice, irmão da mãe da mãe); a segunda, no domingo ao jantar, em casa do avô António que recebeu os primos de longe. A Alice parece ter gostado destes encontros em que foi por vários momentos o centro das atenções, andou de colo em colo sem se fartar, conheceu muitas primas de idades várias e dois cães muito maiores que ela, descansou em camas grandes e fez parte da mesa do almoço. Recebeu roupas (algumas vindas do outro lado do oceano), bonecada e um divertido palimpsesto desenhado e legendado a caneta de ponta fina que nunca conseguirá decifrar sozinha antes dos vinte anos. Estamos prontos para mais. Mas este fim-de-semana o que nos apetece mesmo é isto - também temos primos em Évora, e mesmo que não partilhemos apelidos, podemos partilhar percentis, queixas, babetes e cantilenas ridículas.
São coisas indizíveis. A forma como ela sorri para mim quando acorda, por exemplo. Quem me dera ter aqui à mão palavras capazes de descrever tanta doçura (mas não tenho; mas não há). A forma como ela respira, como ela se mexe, como ela cheira, como ela palra. Ou aqueles olhos que me reconhecem quando chego a casa ao fim do dia e se acendem de súbito, tomados por uma espantosa alegria. Ou a sensação única de sentir o seu corpo minúsculo aninhando-se nos meus braços, como se eu a pudesse proteger de tudo o que o mundo tem de agreste. São coisas indizíveis. Como as que eu lhe digo em silêncio. E ela percebe.
Parece estranho, mas acho que é por aqui. Trazemos connosco durante semanas a fio um ser pequeno que cresce com a nossa barriga, arriscamo-nos a pô-lo cá fora e depois depende quase exclusivamente de nós. Mas não é nosso. Não é de pessoa nenhuma. É qualquer coisa a toda a gente. A nós, é-nos só um filho.
Há já algum tempo que acho que a melhor maneira de explicar a revolução dos cravos é contar o que é que mudou. Este senhor fê-lo, clara e simplesmente, em Abril passado. (Na altura o Pai da Alice escreveu sobre o livro, mas não tenho para onde lincar, resta-nos o dossiê da avó Aida para consultas futuras.)
Há vinte e um anos pintámos as paredes lá na escola. Há onze anos trocámos as aulas por sessões contínuas de debates, perto da sala dos professores. No ano passado não sabíamos que parte da nossa liberdade estava por um fio (e isso é muito bom).
Dizia-me uma mãe recente, na aula de ginástica, muito entusiasmada: "o meu filho, ontem, deixou-me dormir cinco horas seguidas". Estivemos grávidas ao mesmo tempo, os bebés nasceram com dias de diferença. Durante o primeiro mês, acordávamos a Alice ao fim de cinco horas de sono para não prolongar demasiado o jejum. Assim que fez um mês recebemos autorização médica para a deixar dormir até querer. Brindou-nos com seis horas, depois sete e, há pelo menos três semanas, que acorda de manhã com o movimento no quarto, o rádio a tocar, eu a tentar que o pai se levante. Como se não bastasse, desperta sorridente, toma o pequeno-almoço, e volta para a cama, a maior parte das vezes sem protestos, para se entregar a um longo sono que termina algures pela uma da tarde, se a mãe não tiver que sair antes. É preciso pensar três vezes antes de comentar as deixas das outras mães; a sorte protege os audazes, mas não queria abusar dela.
Na recta final da gravidez trabalhei exclusivamente em casa. É o que faço desde há pouco mais de um mês. Primeiro devagarinho, depois mais efusivamente, à medida que a Alice vai deixando. Não digo que seja uma sorte porque o trabalho que vou fazendo não é propriamente invejável. As transcrições de cassetes*, as revisões de texto e os telefonemas avulsos que me ocupam os tempos livres fazem-me sentir entre a mulher-a-dias da escrita e o servente das palavras. Não é fácil trabalhar em casa porque todas as horas podem ser horas de trabalho, não há cartão de ponto, mas há prazos a cumprir e pessoas que dependem quase vitalmente das minhas pequenas tarefas. São mais as vezes em que as semanas não têm fim do que os feriados desencontrados do resto do mundo. São as horas que passo no escritório ao fundo da casa e as rodas do berço da Alice que nos vão permitir adiar por mais um ano a entrada numa escola. Por enquanto, adiamos apenas os passeios ao sol.
* consistem na audição de conversas e uso simultâneo do teclado do computador.
Há mais do que uma razão para uma jovem mãe não actualizar assim tanto o blogue. Acho que a principal é a vontade de saber do mundo das pessoas crescidas quando se avista o ícone .
Talvez haja, ao lado da máquina do café, uma bica para a felicidade, a avaliar pela renovação constante e convicta com que o rapaz do lado de dentro do balcão saúda a Alice à chegada e se despede à partida.
Com o alto patrocínio de dois amigos (ele escreve neste blogue supimpa; ela fritou os neurónios à procura de imagens e fontes "aliciantes") que vieram cá a casa, no sábado, para uma animadíssima sessão nocturna de «Catan», com vinho, queijo e muitas gargalhadas a acompanhar. Thanks, A. Thanks, S. A versão "automobilística" do desenho será instalada em breve.
... mas eu gostava muito de saber: com que idade é que as crias humanas deixam de bolçar. Aqui em casa gostamos muito de queijo, mas apreciamos mais o cheiro a bebé.
Quando fiz 33 anos, a Mãe da Alice ofereceu-me um curso de massagens para bebés e escusado será dizer que fiquei radiante. Assim que a Alice se aproximou dos dois meses, idade mínima para começar as aulas, lá fomos mais uma vez para o lugar onde nos ensinaram, durante a parte final da gravidez, as melhores maneiras de enfrentar o parto e o que se lhe segue. Sentámo-nos na mesma sala, diante dos mesmos espelhos. Mas com uma diferença importante: no lugar das outras barrigas, estavam outros bebés. Sobre as aulas propriamente ditas, falarei lá mais para o fim do curso. Por agora, quero apenas partilhar esta imagem captada pela Mãe da Alice, quando as minhas mãos tentavam imitar os movimentos do Sol e da Lua na barriga mais bonita que existe à superfície da Terra (e também debaixo da terra, e na estratosfera, e em órbita, e no Sistema Solar, e até para lá de todas as fronteiras conhecidas do Universo).
São muitas as causas: trabalho, trabalho, trabalho, solicitações avulsas vindas de todos os lados, não sei quantos textos com dead-lines apertadas, debates públicos que exigem preparação, um outro blogue com (muitos) leitores ávidos de material fresquinho, mais trabalho, trabalho, trabalho. São muitas as causas, repito, para os meus prolongados (e sofridos) afastamentos deste blogue. Mas tenho um enorme consolo: só sou Pai ausente aqui (blogosfera), nunca lá (vida real) onde a Alice mais precisa de mim.
Um filho não nos prende em casa, nem nos tolhe os movimentos, aumenta é o número de gestos por minuto e dispersa-nos a atenção em pormenores desconhecidos. Fazemos tudo juntas, demora é muito mais tempo. A ida à ginástica, por exemplo, é ocupação para as tardes inteiras das terças e quintas - e não é só por causa do trânsito que nos leva a passar trinta minutos dentro do carro para percorrer duzentos metros no meio da cidade (a Alice a chorar, a Antena 2 a fazer as vezes de uma caixa de música, os outros condutores a buzinarem e eu a assobiar para o ar e a dizer lá para trás, a ver se pega: «ouves, filha, este senhor da ópera grita mais alto do que tu»).
Há duas semanas, vínhamos as duas pela rua, Alice no marsúpio, a cadeira de transporte na mão esquerda, a mochila do bebé às costas, o saco da ginástica por cima da mochila, a mala com coisas minhas por cima do saco da ginástica e da mochila, a chave do carro na mão. A chave do carro que está meio partida, com o plástico dividido em dois a balouçar na argola de metal - a chave do carro que só abre as portas que têm fechadura e que me obriga a verificá-las uma por uma, várias vezes porque estava distraída na primeira volta, se está tudo bem fechado. Já tinha aberto duas portas para conseguir aceder à porta de trás, já tinha atirado com as malas todas para um banco qualquer e já tinha conseguido montar a cadeira no carro (passar todos os cinto pelas ranhuras todas), quando o rapaz buzinou, cumprimentou-me e desconcentrou-me com uma pergunta de outro tempo. Atrapalhei-o com a resposta, arrancou e deixou-me ali, meio a rir sozinha, a filha pendurada, mil pequenas coisas para fazer antes de conseguir chegar ao ginásio e o tempo a passar. Atirei com a chave para parte incerta, sentei a Alice na cadeira, tirei-lhe o gorro e o casaco, acondicionei-a devidamente e fiz tudo o resto que tinha a fazer (desembaraçar-me dos sacos, do marsúpio, deixar o telemóvel à mão).
Muitos minutos depois estávamos prontas para pôr o carro a andar. Fácil: é só sentar ao volante, pés nos pedais, chave na ingnição. Chave... não havia chave, nem junto aos sacos, nem perto do telemóvel, muito menos nos bolsos das calças. Tablier, bancos, porta-bagagens, todas as fechaduras, em cima do carro, debaixo do carro, ao lado do carro. Nada. A Alice, alheia aos meus movimentos, olhava para a rua, os olhos espantados. Deve ter sido quando reparei na serenidade do bebé que me lembrei. Libertei-a dos cintos todos e levantei-a no ar. Lá estava, no sítio onde a tinha sentado, reluzente, a chave, debaixo da Alice todo o tempo.
Por agora, são estas que animam o nosso banho. Parece que o disco não está disponível em Portugal. Chegou-nos antes ainda da Alice, pelas mãos (são dez) do clã da Raquel e do Gonçalo. No domingo passado encontrámo-nos em frente ao rio (estava sol e vento), vimos como todos estão crescidos (não demasiado), lanchámos (leite com chocolate e pão com fiambre) e lembrámo-nos dos versos mais bonitos do disco (a voz fininha não se explica).
Gostaria, afinal, que a minha imagem móvel, atormentada entre mil fotos mutáveis consoante as situações, a idade, coincidisse sempre com o meu «eu» (profundo, como se sabe); mas é o contrário que é preciso dizer: sou «eu» que nunca coincido com a minha imagem, porque é a imagem que é pesada, imóvel, obstinada (aquilo em que a sociedade se apoia), e sou «eu» que sou leve, dividido, disperso e que, como um ludião, não fico quieto, agitando-me no meu bocal.
A cadeia de posts sobre as fotos de crianças em babyblogues tem dado que pensar também aos pais da Alice. Pela minha parte, recordo todos as exigências que tenho feito a mim mesma e ao pai da Alice para que ninguém, mas ninguém mesmo, faça da nossa filha aquilo que ela ainda não quer ser. E é nessa certeza que choco com o nariz e cara toda quando penso neste blogue, meio secreto, que decidimos criar dias antes da Alice nascer. Ao princípio não havia fotos explícitas, depois apareceu a primeira, a segunda, e tornou-se num pequeno vício, uma vaidade, como muito bem explicou a esta mãe. Acho que não há quem nos visite e não saiba que tudo começou na blogosfera, quando nos líamos e escrevíamos aqui e aqui. Uma parte da nosso encontro fez-se on line, quase em directo, de modo mais ou menos claro para quem leu o que passava entre os caracteres. Mas tudo o que realmente importou aconteceu em e-mails, cafés, restaurantes, casas próprias, jantares de amigos, em jardins ao sol, no carro se estivesse frio e vento. Os blogues são também lugares de exposição e há milhares de posts que falam sobre umbigos à mostra. Um babyblogue não é muito mais do que um canto desses, com a agravante de exibir também uma barriga terceira e pequenina - às vezes ainda sem umbigo... Precisamente porque não quisemos mostrar-nos assim ao comum leitor que por aqui passa e que se cruza connosco anonimamente pela cidade, viemos escrever para este lado. Não resistimos ao impulso da escrita. Somos os pais da Alice e ela saberá viver com isso. Convidámos meia dúzia de amigos e familiares a lerem-nos. Amigos que nos conhecem desde sempre; irmãos que estão noutros países; amigos com que tivemos poucos encontros reais - amigos das palavras; primos que estão noutras cidades; amigos que têm filhos pequenos. Acho que não são as fotografias de rosto inteiro vistas por duas dúzias de pessoas com quem falaríamos na rua e a quem mostraríamos o álbum que sobreexpõe a Alice. Ou por outra, não me parece que lhe acrescentem o sufixo. De qualquer modo, nunca é demais lembrar: este não é o blogue da Alice. Este é o blogue dos pais da Alice, onde se afixam algumas imagens do rebento (talvez menos, de ora em diante, enquanto nos lembrarmos disso) e considerações várias sobre paternidade e a maternidade. Mesmo assim, talvez por causa dos posts todos que li (gostei muito deste e deste, dos outros nem por isso), preferia que este lado do espelho continuasse meio secreto e com fotografias.