Foi por aqui que decidi iniciar-me na obra de Maria Judite de Carvalho - o blogue que não dará um livro com o mesmo título, mas que não envergonha aquele a quem presta homenagem.
Era uma coisa que me fazia uma certa confusão. Na rua, abordado pelas velhinhas do costume, ouvia muitas vezes a pergunta «é uma menina ou um menino?», mesmo quando a Alice saía de casa vestida de cor-de-rosa dos pés à cabeça. Dito de outro modo: se nem com os códigos cromáticos tradicionais as pessoas chegavam lá, o que é que seria preciso fazer para demonstrar de forma clara a identidade sexual da minha filha? [Não que isso me preocupe minimamente, como é óbvio. Estamos aqui no campo da pura curiosidade sociológica.] Até que no outro dia fez-se luz no meu espírito. As pessoas têm dúvidas sobre o género da Alice, mesmo com roupas cor-de-rosa, porque ela não exibe um único dos verdadeiros sinais exteriores de feminilidade. A saber: 1) os vestidos com folhinhos; 2) os brincos (ou pelo menos as orelhas furadas); 3) a inevitável e horrenda-para-lá-de-todos-os-limites fita na cabeça, para suster os cabelos que a pobre bebé não tem. Esta explicação contribui igualmente para esclarecer uma outra dúvida que me assalta amiúde: a de saber o porquê do adjectivo coitadinha. As mesmas senhoras idosas que não sabem se a Alice é rapaz ou rapariga, uma vez desfeito o mistério põem-se a olhar, misericordiosas, enquanto exclamam: «Ai é tão linda, coitadinha!» (com um sublinhado enfático na palavra coitadinha). Agora percebo: a Alice é coitadinha, para a terceira idade do meu bairro, porque não usa vestidos com folhinhos, nem brincos nas orelhas furadas, nem sequer a inevitável e horrenda-para-lá-de-todos-os-limites fita na cabeça. E a frase, por cortesia, fica incompleta. Na verdade, elas queriam era dizer: «Ai é tão linda, coitadinha! Pena é ter uns pais tão descuidados que não lhe compram brincos, ou pelo menos, vá lá, uma fita, e em calhando, está-se mesmo a ver, são capazes de nem baptizar a pequena».
Pega no pé. Mexe no pé. Olha para o pé. Acaricia o pé. Agarra nos dedos do pé. Contempla o pé. Apercebe-se de que tem pé. Quase chucha no pé (já faltou mais).
Metemo-nos por maus caminhos (testes parvos e assim), depois dá nisto. Experimentem fazer uma busca no Google com a palavra-chave "destelado". Sem grande surpresa, a lista de 102 referências aparece por baixo da sibilina pergunta: «Será que quis dizer destilado?» Cá se fazem, cá se pagam.
Desculpa, querida, mas se há apelido que me provoca um anti-clímax (para usar um eufemismo) é Fagundes. Espero que ninguém se ofenda com isto, mas Fagundes soa-me sempre a contabilista fraudulento com problemas de caspa, a madeireiro burgesso e sem escrúpulos que se aproveita dos incêndios que ele próprio mandou atear, a construtor civil com anéis de ouro e impostos em dívida que escolheu o hino do Benfica como toque de telemóvel e bate na mulher todas as noites, a militar da GNR obeso e de farta bigodaça que usa óculos escuros RayBan de imitação nas operações stop durante a Páscoa («boa noite, eu sou o cabo Fagundes, faça o favor de mostrar os seus documentos») ou a actor de telenovelas da Globo que já conheceu melhores dias mas continua a encantar donas-de-casa menopáusicas. Resumindo: ainda bem que esse teste é, digamos assim, pouco fiável. Caso contrário, teríamos sérios problemas.
Aqui há tempos, encontrou um gesto de auto-conforto, talvez o primeiro, muito bonito. A mão pequenina agarrava os cabelos no alto da cabeça, às vezes por isso ficavam muitos sobre o lençol depois do sono. Entretanto, nos últimos dias tem percebido que as mãos (além de servirem para manipular bonecos, ajudar a colher, serem sugadas em vários ângulos) servem também para comunicar com os outros. Toca-nos devagar na cara, tenta tirar-me os óculos (empenho-me na tarefa de lhe explicar que "aí a mãe não gosta"). Hoje, para se consolar num momento mais difícil, lembrou-se de enrolar os dedos minúsculos nos meus cabelos. Talvez por estar tão careca tenha desistido da sua própria cabeça.
Pediste-me que escrevesse sobre a duração dos minutos. Apetece-me mais falar do vento que me deixou um sabor fresco na boca, do lugar que escolhemos - tão perto de casa e ao mesmo tempo tão longe, como as férias num país distante; com o pequeno lago ao fundo e o barulho das rãs. Pareceu-me um haiku, o nosso encontro, todo o jantar, poucas palavras, a medida certa, nós os dois como naquela tarde, a voz da Lhasa, a comida rara a chegar à mesa na hora exacta (nem a despachar, nem irremediavelmente atrasada), os minutos todos contados, a lua lá em cima. Não cabe tudo em três versos. Surpreendente é que tenha cabido em pouco mais de uma hora.
Estores para baixo, janelas abertas, a ventoinha colocada em sítios estratégicos, toalhinhas refrescantes, sprays de água vaporizada. Todas as armas são boas para manter o calor à distância da pele sensível de um bebé. Nos dias de canícula, então, os pais parecem bombeiros (in)voluntários. Sempre de olho, sempre vigilantes, sempre em estado de alerta. E é talvez por isso que a sirene nunca chega a tocar.
Ela aprendeu, ela aprendeu, ela aprendeu! A virar-se para cima depois de se virar para baixo, entenda-se. Facto que só parece menor a quem não tem um bebé de quatro meses um bocadinho teimoso e ainda às voltas (literalmente) com a questão do centro de gravidade. Enquanto não pratica com a frequência desejável a nova gracinha, a Alice também descobriu uma forma de se consolar e adormecer de barriga para baixo (aleluia), o que faz antever noites mais tranquilas tanto para ela como para o seu progenitor, formerly known as "virador da filha".
Lembro-me hoje do meu acesso ao ensino superior e de como as salas onde se realizavam as específicas naquela que viria a ser a minha faculdade, foram invadidas por alunos de outras salas, impossibilitados de prestar provas por uma greve de docentes. Tenho saudades de fazer exames. Não pela dureza do momento de avaliação, nem pela angústia das noites anteriores. A leveza dos meus pés à saída da sala prolongou-se por um verão inteiro. Talvez por uma vida inteira.
Há pouco mais de um ano trabalhei numa livraria nos arredores de Lisboa. Era um trabalho de que gostava porque me agradava o contacto com o público e receber em primeira mão os novos títulos. Gostava também bastante de alguns colegas com quem podia conversar sobre leituras. Um deles, o chefe da loja, não por acaso, era o leitor mais exigente que conheci até hoje (e atenção, que co-habito com um que não condescende). À parte Jorge Luis Borges, todos os escribas eram para ele menores e inflaccionados. Aos nomes que lhe atirava para cima da mesa respondia sempre, desconfiado, "essa cena à volta do [completar com um grande nome da literatura universal] é um bocado exagerada". William Faulkner (n' "O Som e a Fúria") e Italo Calvino (com "Se numa noite de inverno um viajante") foram alguns dos contemplados com o epíteto do Manuel diante do meu queixo caído. A expressão do livreiro exigente passou a fazer parte do vocabulário cá de casa. Recentemente, a propósito do episódio das pêras no blogue, pude proferir a frase com uma propriedade inédita. O pai da Alice — para quem a alimentação com colher tem, sem dúvida, um significado maior, pois pode passar a fazer parte das refeições da filha — antecipou-se e escreveu as palavrinhas todas na ordem certa aqui.
Depois de quatro dias inteirinhos de constante e profícua interacção Pai/Filha, o regresso ao trabalho pode ser brutal. Pode ser, não. É mesmo brutal. Para atenuar o suplício paterno, a Mãe da Alice envia fotos por e-mail. Uma boa ideia, diga-se. O problema é que depois fico ali feito parvo, a olhar para o ecrã, mais enternecido do que uma adolescente a contemplar uma ninhada de gatinhos "queridos e fofos". A produtividade ressente-se. A paciência dos colegas também. E as saudades, essas, em vez de desaparecerem, só se tornam ainda mais agudas.
Algumas coisas novas que vieram parar cá a casa nos últimos tempos
1)
Uns frascos-miniatura de compota que o Pai da Alice comprou para oferecer à Mãe da Alice, por razões que saltam decerto à vista dos menos distraídos.
2)
Uma cama de viagem emprestadada pelos avós paternos da Alice, onde ela gosta de dormir a sesta com a sua amiga Pinca, a abelha que é cor-de-rosa e não é Maia (é Inca).
3)
Esta belíssima capa de edredon com personagens da Alice no País das Maravilhas, encontrada pela amiga Ju nos meandros do eBay.
4)
Um manjerico de Santo António, comprado numa rua da Graça a uma senhora que escreve as suas próprias quadras. Esta diz assim:
Com M se escreve Mãe Com A se escreve Amor Igual a ti não há Tu és a minha flor
5)
O espantoso carrossel de cartão da Anita, a três dimensões e com música, oferecido pelo Avô António e pela Mi.
OK, admito: esta cena toda à volta da introdução da fruta nos hábitos alimentares da Alice foi um bocado exagerada. Mas o que é que querem, um gajo entusiasma-se e depois dá nisto. Além do mais, vocês, caros leitores, não se podem queixar muito. Antes as fotos da primeira pêra do que, sei lá, as fotos da primeira comunhão.
O segundo lanche de pêra - desta vez na presença dos avós paternos - correu tão bem como o primeiro. Ou até melhor. Pode ter sido impressão minha, mas era capaz de jurar que no fim da refeição a Alice tinha aquele ar satisfeito dos clientes habituais das boas tascas, quando sabem que foram servidos como merecem.
No post anterior, pretendíamos recrutar um babysitter, pedimos muito e não oferecemos nada em troca. Fica aqui a outra parte do anúncio, para contratações futuras. Oferecemos umas horas com um simpático bebé que chora e tudo (sobretudo entre as 20h e as 23h), sorrisos cúmplices desdentados, acesso à nossa DVDteca onde consta uma caixa com todos os filmes do João César Monteiro (incompatíveis com a actividade, esqueçam), uma caixa com os últimos filmes da Pixar (ainda é cedo) e uma caixa com os primeiros episódios do Verão Azul (boa para candidatos nascidos durante os anos setenta). Oferecemos também um jantar, num restaurante aqui perto, IjorgeL de seu nome, a pagar em dia de folga do babysitter contratado.
Aproveito ainda este post (o título adequa-se) para agradecer às simpáticas Rute e Inês que se ofereceram para desperdiçar connosco um serão, bem como à avó que efectivamente o desperdiçou. Muito gratos.
- Será que ela vai gostar? - Será que consegue comer o suficiente? - Será que se habitua à colher de silicone?
Resposta típica do bebé:
- Ora bem, deixa-me lá provar isto, hmmm, é docinho, não é propriamente leite mas escorrega bem, hmmm, acho que quero mais, deixa-me lá lamber a colher para eles perceberem que estou mesmo a gostar, isso, mãe, grande colherada, uau, mas que saboroso, I like it, yes, I like it, mãezinha, importas-te de te despachar com isso, hello?, espero que tenhas reparado que está aqui um bebé com fomeca, venha de lá a pêra cozida e desfeita, maravilha das maravilhas, gosto tanto que até deixo escorrer pelo queixo abaixo, nham, nham, nem penses que páras para descansar, ai agora é o pai?, seja, o ritmo é que não pode abrandar que o prato é para comer até ao fim, sim, sim, um dia ainda vão ter saudades desta minha voracidade saudável, ai pois vão, quando vos pedir uma moeda de 50 cêntimos para comprar pastilhas de cores tão improváveis que nem sequer fazem parte do arco-íris.
Pensar que a Alice ainda nem sequer suspeita que existiu há mais de quatro séculos um homem chamado Luiz Vaz, genial zarolho, poeta maior de Portugal... Pois é. Saberá tudo isso quando chegar a altura própria. E cá estaremos para apreciar o seu espanto.
Aceitamos candidaturas para o preenchimento da vaga de "suplente de babysitter". Ainda não sabemos se os contactados oficiais (avós) estarão disponíveis e sexta-feira é noite de "É a cultura, estúpido!", na Feira do Livro. O pai da Alice organizou o encontro, o encontro é sobre livros. Começa às 22h00, termina antes da meia-noite. O "suplente de babysitter" terá que estar disponível a partir das 21h00, deslocar-se a nossa casa, ser maior de idade, conhecido (e do agrado) da Alice, saber usar um telemóvel, conseguir que uma em cada sete colheres de água seja deglutida por um bebé de quase quatro meses. Enviar referências e carta de motivação para pais_da_alice@yahoo.com.
A Alice recusa-se a beber água. Olha para mim incrédula e desgostosa, como quem pergunta: "que líquido insípido é esse que me queres pôr na boca?" ou "porque é que seguras um frasco na ponta da chupeta?" Um dia descobrirá que há líquidos para além do leite. Em breve, vai descobrir que há sabores para além deste. Estamos em contagem decrescente para as frutas.
Se não morássemos num bairro onde por cada bebé há vinte avós, podia ser que houvesse por perto mais mães que trabalham por casa. Sonho com uma comunidade materna em que eu pudesse ficar com outro bebé uma tarde por semana e deixar a Alice com outra mamã durante igual período, num outro dia. Uma tarde inteira de intercomunicador desligado para não estar sempre a fugir dos deadlines.
Não é preciso mais do que uma fralda, garanto-vos, para garantir muitos minutos de divertimento. As coisas passam-se assim:
1) Estender a fralda por cima do corpo da Alice, tapando-a completamente. 2) A Alice debate-se e tenta libertar-se do pano que a cobre. 3) A Alice consegue os seus intentos. 4) A Alice espreita cá para fora (para nós), eufórica e satisfeita, vitoriosa e sorridente. 5) A Alice fica à espera que os passos 1), 2), 3) e 4) sejam repetidos. 6) Os passos 1), 2), 3) e 4) são repetidos. 7) Voltamos a 5). 8) Voltamos a 6). 9) Etc., etc., etc.
Como boa estudante de Ciências da Comunicação que fui durante um quarto da minha vida, sigo a recomendação* de Lugwig Wittgenstein (o do Tratado Lógico-Filosófico). De tudo o que me tem acontecido ultimamente, há muita coisa de que não posso falar porque não há palavras com o tamanho certo. Um dia destes a Alice deu-me uma lição e pêras. Percebi tudo, com uma clareza indizível, sem ela, evidentemente, ter recorrido ao verbo. Quanto às pêras, retribuo já na próxima semana: cozidas, desfeitas, uma a uma, todos os dias, com colher, alternando com maçãs e um mix da duas.
*Wovon man nicht sprechen kann, darüber muß man schweigen. Em português, na edição da Gulbenkian: "Acerca daquilo de que se não pode falar, tem que se ficar em silêncio."
A cara da Alice às voltas no chão da sala, ontem à noite (cf. post anterior). Os pontapés nos bonecos. A força de braços. Os balanços. A cabeça muito levantada. O corpinho tenso, perplexo com as suas próprias façanhas musculares. Ou muito me engano, ou estamos para aqui a criar uma Nadia Comaneci.
Ontem à noite, a Alice era para ter ficado deitada no tapete em forma de lago, os bonecos pendurados por cima. "Ficar" não é um bom verbo. Impossibilitada de treinar as elevações com o sapo-argola — faltava-lhe o par, o segundo ponto de apoio — treinou a rotação lateral sobre si mesma. Uma vez, outra vez, mais meia volta. A série "volta e meia" valeu-nos uma longa noite de sono.
Mais uma vez (é a quinta) não nos lembrámos de ligar (domingo passado) para o Alentejo a felicitar o Gabriel por mais um mês. Por agora as sete semanas que separam os dois bebés são imensas. Pode ser que deixemos de nos esquecer quando já não houver diferenças.
Há mais ou menos um ano ainda não sabia que estava grávida e conheci o pai do Miguel, que ainda não o era completamente e contava os dias em falta para o ser. Pouco depois do nascimento do Miguel, soubemos que vinha para aqui mais alguém. Após um encontro virtual e um encontro falhado, no último domingo encontrámos finalmente, no Parque, o pai, a mãe e um bebé de olhos azuis a mordiscar um livro, alheio ao vento e à indisposição da tão mais pequena Alice. Para a próxima tomamos um refresco, comemos um gelado e mostramos os sacos das compras ou os livros empilhados debaixo do carrinho.
A mãe da Alice não é o Fernando Alonso, mas também não é o típico condutor-de-domingo-que-anda-sempre-a-pisar-ovos. Está algures a meio caminho entre os dois, onde devia estar toda a gente. Além disso, é uma cidadã responsável, ao volante e longe do volante. Cumpre o código (sem ser por medo das multas) e respeita tanto os limites de velocidade como os do bom senso. Talvez pelo somatório de tudo isto, nunca hesitei em passar-lhe as chaves do Clio, desde o primeiro minuto. Há pessoas que não precisam de provar nada para merecer a nossa via verde.
"É um pouco como tirar a carta de condução. Somos a mesma pessoa mas de um dia para o outro estamos autorizados a fazer algo que nunca fizemos. E não sabemos se somos capazes nem o que mudou em nós para que possamos fazê-lo." O Pai da Maria deve ter sido bem espremido para, no fim do artigo, explicar assim a sua condição. Assinava por baixo, mas antes penso um bocadinho na minha vida de condutora.
Fui habilitada com a carta de condução em Outubro de 1998: uma folha limpa, as aulas todas assistidas, o código debitado e crucificado à primeira, um exame de condução tímido, mas suficiente e com direito a manobras que nunca mais experimentarei na vida (deixo sempre para o pendura o contorno de passeios curvos em marcha atrás, a dez centímetros e meio do lancil). Conduzi um Fiat Seicento cor de salmão nas estradas sinuosas de S. Miguel, no fim do verão de 1999. Algures em 2002, achei que era preciso voltar a conduzir. Depois de três ou quatro tentativas assustadoras (mais para quem ia no banco direito do que atrás do volante), decidi comprar dez lições de treino para encartados, num estabelecimento com um nome melhor do que o serviço que me oferecia. Lá segui eu no carro de instrução, a placa "António da Escola" em cima, o descontraído técnico ao lado. O diagnóstico foi o esperado: eu era capaz, era só preciso fazê-lo sozinha, sem conselhos que me baralhassem em tempo real.
Acabei as lições e dei por finda a prática até ao dia em que o pai da Alice se aventurou a ensinar-me a conduzir um Renault Clio azul. Foi há quase dois anos, conhecíamo-nos ainda não havia um mês, algures na costa alentejana. Tenho ali apontado num caderno preto os quilómetros que fiz nessa tarde com os pés nos pedais. Quase um ano depois, há um ano, portanto, mudámos de bairro e eu de emprego, e foi preciso atravessar uma vez a cidade a meio do dia em contra-relógio. De transportes demoraria mais do que o tempo que conseguia trabalhar num computador distante, se fosse de carro. Depois, mudámos para a casa onde estamos agora, já havia a Alice a crescer na barriga e era preciso voltar todos os dias ao bairro antigo para trabalhar, sempre a más horas para os autocarros. Passei a fazer esse trajecto diário e a apanhar o pai da Alice no regresso a casa. Conduzi até às 39 semanas de gestação e voltei a pegar no carro duas semanas depois da Alice nascer.
Estive mais de cinco anos legalmente autorizada a conduzir um veículo ligeiro. Não o fiz durante demasiado tempo, custou-me por isso voltar a conduzir. Nos anos de estacionamento atrapalharam-me bastante os comentários e a insegurança dos outros relativamente à minha condução - mesmo sem a experimentarem. Valeu-me de muito, depois, a confiança daquele que me passou as chaves do carro para a mão. A metáfora também me serve a mim: atrapalham-me bastante na missão todos os que desconfiam da minha capacidade de ser mãe, que secretamente se sentem melhores que eu no meu desempenho natural. Sinto-me muito melhor quando os que vão comigo sabem em que lugar se devem sentar no carro.
Correi para as bancas para ver sem censuras esta linda foto e apreciar o texto que a acompanha. De facto, quem não conheça o blogue do pai galinha talvez ache tudo aquilo demasiado estranho. Aqui em casa gostámos bastante, sobretudo quando se fala das preferências musicais da grande Maria.