Deste lado do espelho

Alice já mora aqui [caixa do correio: pais_da_alice@yahoo.com]

quinta-feira, junho 30, 2005

 

Se isto é forma de se dormir














Alice durante a sesta, de rabo empinado.

quarta-feira, junho 29, 2005

 

Mais vale tarde..., Sarah Morton

Foi por aqui que decidi iniciar-me na obra de Maria Judite de Carvalho - o blogue que não dará um livro com o mesmo título, mas que não envergonha aquele a quem presta homenagem.
 

Well, well, well, Gabriel

Para o melhor amigo da Alice, um alentejanito encantador que hoje faz meses:


Oito anos

Por que você é Flamengo
E meu pai Botafogo
O que significa
"Impávido colosso"?

Por que os ossos doem
enquanto a gente dorme
Por que os dentes caem
Por onde os filhos saem

Por que os dedos murcham
quando estou no banho
Por que as ruas enchem
quando está chovendo

Quanto é mil trilhões
vezes infinito
Quem é Jesus Cristo
Onde estão meus primos

Well, well, well
Gabriel...

Por que o fogo queima
Por que a lua é branca
Por que a terra roda
Por que deitar agora

Por que as cobras matam
Por que o vidro embaça
Por que você se pinta
Por que o tempo passa

Por que que a gente espirra
Por que as unhas crescem
Por que o sangue corre
Por que que a gente morre

Do que é feita a nuvem
Do que é feita a neve
Como é que se escreve
Réveillon

Adriana Calcanhotto, in Adriana Partimpim (2004)

[ERRATA: onde se lê oito anos, leia-se seis meses.]


terça-feira, junho 28, 2005

 

Não se preocupem: o meu nome não é Tarzan


Cartoon de Níquel Náusea (publicado no DN)

 

Sinais exteriores de feminilidade

Era uma coisa que me fazia uma certa confusão. Na rua, abordado pelas velhinhas do costume, ouvia muitas vezes a pergunta «é uma menina ou um menino?», mesmo quando a Alice saía de casa vestida de cor-de-rosa dos pés à cabeça. Dito de outro modo: se nem com os códigos cromáticos tradicionais as pessoas chegavam lá, o que é que seria preciso fazer para demonstrar de forma clara a identidade sexual da minha filha?
[Não que isso me preocupe minimamente, como é óbvio. Estamos aqui no campo da pura curiosidade sociológica.]
Até que no outro dia fez-se luz no meu espírito. As pessoas têm dúvidas sobre o género da Alice, mesmo com roupas cor-de-rosa, porque ela não exibe um único dos verdadeiros sinais exteriores de feminilidade. A saber: 1) os vestidos com folhinhos; 2) os brincos (ou pelo menos as orelhas furadas); 3) a inevitável e horrenda-para-lá-de-todos-os-limites fita na cabeça, para suster os cabelos que a pobre bebé não tem.
Esta explicação contribui igualmente para esclarecer uma outra dúvida que me assalta amiúde: a de saber o porquê do adjectivo coitadinha. As mesmas senhoras idosas que não sabem se a Alice é rapaz ou rapariga, uma vez desfeito o mistério põem-se a olhar, misericordiosas, enquanto exclamam: «Ai é tão linda, coitadinha!» (com um sublinhado enfático na palavra coitadinha).
Agora percebo: a Alice é coitadinha, para a terceira idade do meu bairro, porque não usa vestidos com folhinhos, nem brincos nas orelhas furadas, nem sequer a inevitável e horrenda-para-lá-de-todos-os-limites fita na cabeça. E a frase, por cortesia, fica incompleta. Na verdade, elas queriam era dizer: «Ai é tão linda, coitadinha! Pena é ter uns pais tão descuidados que não lhe compram brincos, ou pelo menos, vá lá, uma fita, e em calhando, está-se mesmo a ver, são capazes de nem baptizar a pequena».
 

A última graça

Pega no pé. Mexe no pé. Olha para o pé. Acaricia o pé. Agarra nos dedos do pé. Contempla o pé. Apercebe-se de que tem pé. Quase chucha no pé (já faltou mais).

segunda-feira, junho 27, 2005

 

Reserve o seu exemplar, caramba

Já para as bancas.
 

Na porta do congelador, uma frase que nos derrete


 

1+1+1=3

A aritmética é mesmo uma ciência exacta.
 

Pequenos gestos, gargalhadinhas, coisas assim

Todos os dias ela faz coisas que nunca fez. E todos os dias olhamos um para o outro: surpreendidos, maravilhados.

domingo, junho 26, 2005

 

Alice desfocada


 

Sabedoria infantil

P: O que é a homossexualidade?
R: É ser gay, é gostar de um amigo por amor.

Orlando Jacob, 7 anos (entrevistado, por Sarah Adamopoulos, no número de Julho de 2005 da revista «Pais & Filhos»)

sábado, junho 25, 2005

 

Maus caminhos

Metemo-nos por maus caminhos (testes parvos e assim), depois dá nisto. Experimentem fazer uma busca no Google com a palavra-chave "destelado". Sem grande surpresa, a lista de 102 referências aparece por baixo da sibilina pergunta: «Será que quis dizer destilado
Cá se fazem, cá se pagam.
 

Já agora

Completemos o teste lá de baixo:

Your Sexy Brazilian Name Is

Fabiano da Silva

What's Your Sexy Brazilian Name?


Gozem, gozem.

sexta-feira, junho 24, 2005

 

Fagundes?

Desculpa, querida, mas se há apelido que me provoca um anti-clímax (para usar um eufemismo) é Fagundes. Espero que ninguém se ofenda com isto, mas Fagundes soa-me sempre a contabilista fraudulento com problemas de caspa, a madeireiro burgesso e sem escrúpulos que se aproveita dos incêndios que ele próprio mandou atear, a construtor civil com anéis de ouro e impostos em dívida que escolheu o hino do Benfica como toque de telemóvel e bate na mulher todas as noites, a militar da GNR obeso e de farta bigodaça que usa óculos escuros RayBan de imitação nas operações stop durante a Páscoa («boa noite, eu sou o cabo Fagundes, faça o favor de mostrar os seus documentos») ou a actor de telenovelas da Globo que já conheceu melhores dias mas continua a encantar donas-de-casa menopáusicas.
Resumindo: ainda bem que esse teste é, digamos assim, pouco fiável. Caso contrário, teríamos sérios problemas.
 

Esclarecimento

Qualquer semelhança entre a fotografia abaixo postada e a realidade é pura boa vontade.
 

O meu é o melhor de todos

Your Sexy Brazilian Name Is

Adaiane Fagundes

What's Your Sexy Brazilian Name?


(Via Ana e muitos outros depois)
 

O melhor blogue do mundo

Hoje é este.
 

Já não sou uma super-mãe

Ontem à tarde, diante da minha filha que sorria com três dedos na boca, perdi vergonhosa e inesperadamente uma aposta.
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Eu torço

Que ninguém torça pela Alice sem espreitar o texto do Drummond de Andrade que a Filipa aqui afixa. (E pensar duas vezes depois.)
 

Mãos e cabeça

Aqui há tempos, encontrou um gesto de auto-conforto, talvez o primeiro, muito bonito. A mão pequenina agarrava os cabelos no alto da cabeça, às vezes por isso ficavam muitos sobre o lençol depois do sono. Entretanto, nos últimos dias tem percebido que as mãos (além de servirem para manipular bonecos, ajudar a colher, serem sugadas em vários ângulos) servem também para comunicar com os outros. Toca-nos devagar na cara, tenta tirar-me os óculos (empenho-me na tarefa de lhe explicar que "aí a mãe não gosta"). Hoje, para se consolar num momento mais difícil, lembrou-se de enrolar os dedos minúsculos nos meus cabelos. Talvez por estar tão careca tenha desistido da sua própria cabeça.

quinta-feira, junho 23, 2005

 

Test-drive

Para quem quiser experimentar (antes de todos os outros) um novo veículo do Pai da Alice.

quarta-feira, junho 22, 2005

 

Grand Herbier d'Ombres (*)

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Às vezes pergunto-me como será a sua silhueta, o desenho da sombra nos dias futuros de sol mais intenso.

(*) Título roubado a Lourdes Castro

terça-feira, junho 21, 2005

 

Haiku

Lua alta, noite nítida;
regressamos ao número dois.
Mas mesmo longe, a filha perto.

 

Linque familiar

Ainda antes das perguntas da neta, o avô António explica aqui o funcionamento de certas coisas.
 

Ontem à noite

Pediste-me que escrevesse sobre a duração dos minutos. Apetece-me mais falar do vento que me deixou um sabor fresco na boca, do lugar que escolhemos - tão perto de casa e ao mesmo tempo tão longe, como as férias num país distante; com o pequeno lago ao fundo e o barulho das rãs. Pareceu-me um haiku, o nosso encontro, todo o jantar, poucas palavras, a medida certa, nós os dois como naquela tarde, a voz da Lhasa, a comida rara a chegar à mesa na hora exacta (nem a despachar, nem irremediavelmente atrasada), os minutos todos contados, a lua lá em cima. Não cabe tudo em três versos. Surpreendente é que tenha cabido em pouco mais de uma hora.

segunda-feira, junho 20, 2005

 

H2O à colherada

Não é a solução perfeita, mas é o que se pode arranjar, depois do renegado biberon e antes do copo providencial.

domingo, junho 19, 2005

 

Soldados da Paz sem Canadair

Estores para baixo, janelas abertas, a ventoinha colocada em sítios estratégicos, toalhinhas refrescantes, sprays de água vaporizada. Todas as armas são boas para manter o calor à distância da pele sensível de um bebé.
Nos dias de canícula, então, os pais parecem bombeiros (in)voluntários. Sempre de olho, sempre vigilantes, sempre em estado de alerta. E é talvez por isso que a sirene nunca chega a tocar.
 

Boa nova

Ela aprendeu, ela aprendeu, ela aprendeu! A virar-se para cima depois de se virar para baixo, entenda-se. Facto que só parece menor a quem não tem um bebé de quatro meses um bocadinho teimoso e ainda às voltas (literalmente) com a questão do centro de gravidade.
Enquanto não pratica com a frequência desejável a nova gracinha, a Alice também descobriu uma forma de se consolar e adormecer de barriga para baixo (aleluia), o que faz antever noites mais tranquilas tanto para ela como para o seu progenitor, formerly known as "virador da filha".

sábado, junho 18, 2005

 

Analogia (2)

«Muitos anos a assar frangos», diz o outro, como sinal de experiência. «Muitas noites a virar a filha», digo eu, à espera que ela aprenda.

sexta-feira, junho 17, 2005

 

Exames

Lembro-me hoje do meu acesso ao ensino superior e de como as salas onde se realizavam as específicas naquela que viria a ser a minha faculdade, foram invadidas por alunos de outras salas, impossibilitados de prestar provas por uma greve de docentes. Tenho saudades de fazer exames. Não pela dureza do momento de avaliação, nem pela angústia das noites anteriores. A leveza dos meus pés à saída da sala prolongou-se por um verão inteiro. Talvez por uma vida inteira.
 

Teasing

Este foi o site que mais visitei na última semana.

quinta-feira, junho 16, 2005

 

Analogia

A Alice é como Portugal. Vira-se para baixo de dois em dois minutos, compulsivamente, mas não sabe voltar sem ajuda à posição de origem.

quarta-feira, junho 15, 2005

 

Criação


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Exageros

Há pouco mais de um ano trabalhei numa livraria nos arredores de Lisboa. Era um trabalho de que gostava porque me agradava o contacto com o público e receber em primeira mão os novos títulos. Gostava também bastante de alguns colegas com quem podia conversar sobre leituras. Um deles, o chefe da loja, não por acaso, era o leitor mais exigente que conheci até hoje (e atenção, que co-habito com um que não condescende). À parte Jorge Luis Borges, todos os escribas eram para ele menores e inflaccionados. Aos nomes que lhe atirava para cima da mesa respondia sempre, desconfiado, "essa cena à volta do [completar com um grande nome da literatura universal] é um bocado exagerada". William Faulkner (n' "O Som e a Fúria") e Italo Calvino (com "Se numa noite de inverno um viajante") foram alguns dos contemplados com o epíteto do Manuel diante do meu queixo caído. A expressão do livreiro exigente passou a fazer parte do vocabulário cá de casa. Recentemente, a propósito do episódio das pêras no blogue, pude proferir a frase com uma propriedade inédita. O pai da Alice — para quem a alimentação com colher tem, sem dúvida, um significado maior, pois pode passar a fazer parte das refeições da filha — antecipou-se e escreveu as palavrinhas todas na ordem certa aqui.

terça-feira, junho 14, 2005

 

Ressaca (2)

Pergunta: Quantos minutos é que ainda faltam para voltar a casa?
Resposta: Demasiados.
 

Ressaca

Depois de quatro dias inteirinhos de constante e profícua interacção Pai/Filha, o regresso ao trabalho pode ser brutal. Pode ser, não. É mesmo brutal.
Para atenuar o suplício paterno, a Mãe da Alice envia fotos por e-mail. Uma boa ideia, diga-se. O problema é que depois fico ali feito parvo, a olhar para o ecrã, mais enternecido do que uma adolescente a contemplar uma ninhada de gatinhos "queridos e fofos".
A produtividade ressente-se. A paciência dos colegas também. E as saudades, essas, em vez de desaparecerem, só se tornam ainda mais agudas.

segunda-feira, junho 13, 2005

 

Algumas coisas novas que vieram parar cá a casa nos últimos tempos

1)

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Uns frascos-miniatura de compota que o Pai da Alice comprou para oferecer à Mãe da Alice, por razões que saltam decerto à vista dos menos distraídos.


2)

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Uma cama de viagem emprestadada pelos avós paternos da Alice, onde ela gosta de dormir a sesta com a sua amiga Pinca, a abelha que é cor-de-rosa e não é Maia (é Inca).


3)

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Esta belíssima capa de edredon com personagens da Alice no País das Maravilhas, encontrada pela amiga Ju nos meandros do eBay.


4)

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Um manjerico de Santo António, comprado numa rua da Graça a uma senhora que escreve as suas próprias quadras. Esta diz assim:

Com M se escreve Mãe
Com A se escreve Amor
Igual a ti não há
Tu és a minha flor



5)

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O espantoso carrossel de cartão da Anita, a três dimensões e com música, oferecido pelo Avô António e pela Mi.
 

Overreaction

OK, admito: esta cena toda à volta da introdução da fruta nos hábitos alimentares da Alice foi um bocado exagerada. Mas o que é que querem, um gajo entusiasma-se e depois dá nisto. Além do mais, vocês, caros leitores, não se podem queixar muito. Antes as fotos da primeira pêra do que, sei lá, as fotos da primeira comunhão.

domingo, junho 12, 2005

 

Take 2

O segundo lanche de pêra - desta vez na presença dos avós paternos - correu tão bem como o primeiro. Ou até melhor. Pode ter sido impressão minha, mas era capaz de jurar que no fim da refeição a Alice tinha aquele ar satisfeito dos clientes habituais das boas tascas, quando sabem que foram servidos como merecem.
 

Momento de poesia

A colher na boca.
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Ingratos

No post anterior, pretendíamos recrutar um babysitter, pedimos muito e não oferecemos nada em troca. Fica aqui a outra parte do anúncio, para contratações futuras. Oferecemos umas horas com um simpático bebé que chora e tudo (sobretudo entre as 20h e as 23h), sorrisos cúmplices desdentados, acesso à nossa DVDteca onde consta uma caixa com todos os filmes do João César Monteiro (incompatíveis com a actividade, esqueçam), uma caixa com os últimos filmes da Pixar (ainda é cedo) e uma caixa com os primeiros episódios do Verão Azul (boa para candidatos nascidos durante os anos setenta). Oferecemos também um jantar, num restaurante aqui perto, IjorgeL de seu nome, a pagar em dia de folga do babysitter contratado.

Aproveito ainda este post (o título adequa-se) para agradecer às simpáticas Rute e Inês que se ofereceram para desperdiçar connosco um serão, bem como à avó que efectivamente o desperdiçou. Muito gratos.

sábado, junho 11, 2005

 

Fotoreportagem (pouco variada e um bocadinho obsessiva)

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Prato cheio, but not for long.

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Ora deixa cá ver a que é que isto sabe. Hmmm, nada mau.

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E as mãos? Posso usar as mãos? Posso?

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Goela abaixo. Foi tudo goela abaixo. Acho que é a isto que os adultos chamam engolir.

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Boca suja.

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Pronto, admito: isto já é só gulodice.

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Chega, chega, chega. Estou satisfeita. Amanhã há mais.
 

Angústia do desempenho (ou talvez não)

Perguntas típicas dos pais:

- Será que ela vai gostar?
- Será que consegue comer o suficiente?
- Será que se habitua à colher de silicone?

Resposta típica do bebé:

- Ora bem, deixa-me lá provar isto, hmmm, é docinho, não é propriamente leite mas escorrega bem, hmmm, acho que quero mais, deixa-me lá lamber a colher para eles perceberem que estou mesmo a gostar, isso, mãe, grande colherada, uau, mas que saboroso, I like it, yes, I like it, mãezinha, importas-te de te despachar com isso, hello?, espero que tenhas reparado que está aqui um bebé com fomeca, venha de lá a pêra cozida e desfeita, maravilha das maravilhas, gosto tanto que até deixo escorrer pelo queixo abaixo, nham, nham, nem penses que páras para descansar, ai agora é o pai?, seja, o ritmo é que não pode abrandar que o prato é para comer até ao fim, sim, sim, um dia ainda vão ter saudades desta minha voracidade saudável, ai pois vão, quando vos pedir uma moeda de 50 cêntimos para comprar pastilhas de cores tão improváveis que nem sequer fazem parte do arco-íris.
 

Chegou o grande dia

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Allez enfant de la famille
le jour de poire est arrivé

 

Quatro meses

Ela chucha em quatro dedos ao mesmo tempo (como se estivesse a celebrar, à sua maneira, este dia que é especial sobretudo para nós).

sexta-feira, junho 10, 2005

 

Dia de Camões



Pensar que a Alice ainda nem sequer suspeita que existiu há mais de quatro séculos um homem chamado Luiz Vaz, genial zarolho, poeta maior de Portugal...
Pois é. Saberá tudo isso quando chegar a altura própria. E cá estaremos para apreciar o seu espanto.

quinta-feira, junho 09, 2005

 

Abertas as inscrições

Aceitamos candidaturas para o preenchimento da vaga de "suplente de babysitter". Ainda não sabemos se os contactados oficiais (avós) estarão disponíveis e sexta-feira é noite de "É a cultura, estúpido!", na Feira do Livro. O pai da Alice organizou o encontro, o encontro é sobre livros. Começa às 22h00, termina antes da meia-noite. O "suplente de babysitter" terá que estar disponível a partir das 21h00, deslocar-se a nossa casa, ser maior de idade, conhecido (e do agrado) da Alice, saber usar um telemóvel, conseguir que uma em cada sete colheres de água seja deglutida por um bebé de quase quatro meses. Enviar referências e carta de motivação para pais_da_alice@yahoo.com.
 

Parabéns, tio!

A mais de 2000 quilómetros de distância, a Alice manda um sorriso dos dela para o tio Manel, que faz hoje 29 anos.

quarta-feira, junho 08, 2005

 

Apples & Pears



Já só faltam três dias.

terça-feira, junho 07, 2005

 

Novas experiências

A Alice recusa-se a beber água. Olha para mim incrédula e desgostosa, como quem pergunta: "que líquido insípido é esse que me queres pôr na boca?" ou "porque é que seguras um frasco na ponta da chupeta?" Um dia descobrirá que há líquidos para além do leite. Em breve, vai descobrir que há sabores para além deste. Estamos em contagem decrescente para as frutas.
 

Outras vidas

Se não morássemos num bairro onde por cada bebé há vinte avós, podia ser que houvesse por perto mais mães que trabalham por casa. Sonho com uma comunidade materna em que eu pudesse ficar com outro bebé uma tarde por semana e deixar a Alice com outra mamã durante igual período, num outro dia. Uma tarde inteira de intercomunicador desligado para não estar sempre a fugir dos deadlines.
 

Moda

O que eu gostava era de poder vestir-nos num.

segunda-feira, junho 06, 2005

 

Brinquedos de baixa tecnologia

Não é preciso mais do que uma fralda, garanto-vos, para garantir muitos minutos de divertimento.
As coisas passam-se assim:

1) Estender a fralda por cima do corpo da Alice, tapando-a completamente.
2) A Alice debate-se e tenta libertar-se do pano que a cobre.
3) A Alice consegue os seus intentos.
4) A Alice espreita cá para fora (para nós), eufórica e satisfeita, vitoriosa e sorridente.
5) A Alice fica à espera que os passos 1), 2), 3) e 4) sejam repetidos.
6) Os passos 1), 2), 3) e 4) são repetidos.
7) Voltamos a 5).
8) Voltamos a 6).
9) Etc., etc., etc.

sábado, junho 04, 2005

 

Palavras e frutos

Como boa estudante de Ciências da Comunicação que fui durante um quarto da minha vida, sigo a recomendação* de Lugwig Wittgenstein (o do Tratado Lógico-Filosófico). De tudo o que me tem acontecido ultimamente, há muita coisa de que não posso falar porque não há palavras com o tamanho certo. Um dia destes a Alice deu-me uma lição e pêras. Percebi tudo, com uma clareza indizível, sem ela, evidentemente, ter recorrido ao verbo. Quanto às pêras, retribuo já na próxima semana: cozidas, desfeitas, uma a uma, todos os dias, com colher, alternando com maçãs e um mix da duas.



*Wovon man nicht sprechen kann, darüber muß man schweigen. Em português, na edição da Gulbenkian: "Acerca daquilo de que se não pode falar, tem que se ficar em silêncio."
 

Outro linque para o passado

Houve um tempo em que o título dos meus posts acabava com uma vírgula.
 

Minha filha,

quando estou mais longe de ti o meu coração fica do tamanho do teu.

sexta-feira, junho 03, 2005

 

Só visto

A cara da Alice às voltas no chão da sala, ontem à noite (cf. post anterior). Os pontapés nos bonecos. A força de braços. Os balanços. A cabeça muito levantada. O corpinho tenso, perplexo com as suas próprias façanhas musculares. Ou muito me engano, ou estamos para aqui a criar uma Nadia Comaneci.


 

Volta e meia

Ontem à noite, a Alice era para ter ficado deitada no tapete em forma de lago, os bonecos pendurados por cima. "Ficar" não é um bom verbo. Impossibilitada de treinar as elevações com o sapo-argola — faltava-lhe o par, o segundo ponto de apoio — treinou a rotação lateral sobre si mesma. Uma vez, outra vez, mais meia volta. A série "volta e meia" valeu-nos uma longa noite de sono.
 

Agenda

Mais uma vez (é a quinta) não nos lembrámos de ligar (domingo passado) para o Alentejo a felicitar o Gabriel por mais um mês. Por agora as sete semanas que separam os dois bebés são imensas. Pode ser que deixemos de nos esquecer quando já não houver diferenças.

quinta-feira, junho 02, 2005

 

Ligação ao passado

FEIRA DO LIVRO
Aí está ela, de novo (Tejo lá ao fundo, jacarandás em flor). E como todos os anos, no fundo escuro dos sistemas informáticos, a minha conta bancária já pressente os calafrios.

Publicado por José Mário Silva em maio 23, 2004 11:46 AM

quarta-feira, junho 01, 2005

 

O encontro foi na feira

Há mais ou menos um ano ainda não sabia que estava grávida e conheci o pai do Miguel, que ainda não o era completamente e contava os dias em falta para o ser. Pouco depois do nascimento do Miguel, soubemos que vinha para aqui mais alguém. Após um encontro virtual e um encontro falhado, no último domingo encontrámos finalmente, no Parque, o pai, a mãe e um bebé de olhos azuis a mordiscar um livro, alheio ao vento e à indisposição da tão mais pequena Alice. Para a próxima tomamos um refresco, comemos um gelado e mostramos os sacos das compras ou os livros empilhados debaixo do carrinho.
 

Via verde



A mãe da Alice não é o Fernando Alonso, mas também não é o típico condutor-de-domingo-que-anda-sempre-a-pisar-ovos. Está algures a meio caminho entre os dois, onde devia estar toda a gente. Além disso, é uma cidadã responsável, ao volante e longe do volante. Cumpre o código (sem ser por medo das multas) e respeita tanto os limites de velocidade como os do bom senso.
Talvez pelo somatório de tudo isto, nunca hesitei em passar-lhe as chaves do Clio, desde o primeiro minuto. Há pessoas que não precisam de provar nada para merecer a nossa via verde.
 

Eu conduzo

"É um pouco como tirar a carta de condução. Somos a mesma pessoa mas de um dia para o outro estamos autorizados a fazer algo que nunca fizemos. E não sabemos se somos capazes nem o que mudou em nós para que possamos fazê-lo." O Pai da Maria deve ter sido bem espremido para, no fim do artigo, explicar assim a sua condição. Assinava por baixo, mas antes penso um bocadinho na minha vida de condutora.

Fui habilitada com a carta de condução em Outubro de 1998: uma folha limpa, as aulas todas assistidas, o código debitado e crucificado à primeira, um exame de condução tímido, mas suficiente e com direito a manobras que nunca mais experimentarei na vida (deixo sempre para o pendura o contorno de passeios curvos em marcha atrás, a dez centímetros e meio do lancil). Conduzi um Fiat Seicento cor de salmão nas estradas sinuosas de S. Miguel, no fim do verão de 1999. Algures em 2002, achei que era preciso voltar a conduzir. Depois de três ou quatro tentativas assustadoras (mais para quem ia no banco direito do que atrás do volante), decidi comprar dez lições de treino para encartados, num estabelecimento com um nome melhor do que o serviço que me oferecia. Lá segui eu no carro de instrução, a placa "António da Escola" em cima, o descontraído técnico ao lado. O diagnóstico foi o esperado: eu era capaz, era só preciso fazê-lo sozinha, sem conselhos que me baralhassem em tempo real.

Acabei as lições e dei por finda a prática até ao dia em que o pai da Alice se aventurou a ensinar-me a conduzir um Renault Clio azul. Foi há quase dois anos, conhecíamo-nos ainda não havia um mês, algures na costa alentejana. Tenho ali apontado num caderno preto os quilómetros que fiz nessa tarde com os pés nos pedais. Quase um ano depois, há um ano, portanto, mudámos de bairro e eu de emprego, e foi preciso atravessar uma vez a cidade a meio do dia em contra-relógio. De transportes demoraria mais do que o tempo que conseguia trabalhar num computador distante, se fosse de carro. Depois, mudámos para a casa onde estamos agora, já havia a Alice a crescer na barriga e era preciso voltar todos os dias ao bairro antigo para trabalhar, sempre a más horas para os autocarros. Passei a fazer esse trajecto diário e a apanhar o pai da Alice no regresso a casa. Conduzi até às 39 semanas de gestação e voltei a pegar no carro duas semanas depois da Alice nascer.

Estive mais de cinco anos legalmente autorizada a conduzir um veículo ligeiro. Não o fiz durante demasiado tempo, custou-me por isso voltar a conduzir. Nos anos de estacionamento atrapalharam-me bastante os comentários e a insegurança dos outros relativamente à minha condução - mesmo sem a experimentarem. Valeu-me de muito, depois, a confiança daquele que me passou as chaves do carro para a mão. A metáfora também me serve a mim: atrapalham-me bastante na missão todos os que desconfiam da minha capacidade de ser mãe, que secretamente se sentem melhores que eu no meu desempenho natural. Sinto-me muito melhor quando os que vão comigo sabem em que lugar se devem sentar no carro.
 

Pais & Filhos

Correi para as bancas para ver sem censuras esta linda foto e apreciar o texto que a acompanha. De facto, quem não conheça o blogue do pai galinha talvez ache tudo aquilo demasiado estranho. Aqui em casa gostámos bastante, sobretudo quando se fala das preferências musicais da grande Maria.

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