Alice já mora aqui [caixa do correio: pais_da_alice@yahoo.com]
sábado, julho 30, 2005
Ladys and gentlemen, please welcome MISS HOUDINI!!!
(rufar de tambores)
(rufar de tambores)
(rufar de tambores)
(rufar de tambores)
(rufar de tambores)
(rufar de tambores, mais intenso)
(rufar de tambores, ainda mais intenso)
Público: Óóóóóóó! Voz cavernosa ao microfone: Pois é, caríssimo público, nem sempre Miss Houdini consegue libertar-se das muitas amarras que lhe impõem. Mas ainda assim merece uma salva de palmas. (Salva de palmas). Da próxima vez correrá melhor. E agora, meninos e meninas, preparem-se para o urso malabarista que usa óculos e já foi ministro das Finanças...
Tue 26-07-2005, 16:16 From: Mãe da Alice Subject: sesta
Foi um sarilho para a pôr a dormir a sesta, estive lá no quarto, li três contos do NR, dei-lhe de mamar, trouxe-a para o escritório, ia saltando da espreguiçadeira, trouxe a manta e as almofadas para o escritório, queria comer a estrutura do ginásio, por fim voltei a tentar a cama, ainda andou por lá a brincar bastante e fui dar com ela assim, há três minutos.
Dia cheio, uma montanha de livros por desembrulhar, telefones sem parança, páginas e páginas editadas directamente no computador, fecho até às nove da noite. Back to business, as usual. Pelo meio, há quem me pergunte pelas férias (nome por que também são conhecidos os 15 dias de licença parental). Eu respondo que a Alice vai muito bem, obrigado.
O primeiro passo da independência aqui em casa foi dado pela pessoa que nem sequer sabe como é que se gatinha - e acompanhado, no reverso, pelos seus pais, que também ficaram a ganhar. A Alice dorme agora na sua cama, num enorme quarto (com espaço para ela e mais dez bebés, sem recurso a beliches), onde se espera que fique até aos dezoito ou trinta anos. Para já, vamos ouvindo os seus gritinhos de liberdade pelo intercomunicador.
Um blogue de amigas nossas fez dois anos e voltou, após alguns períodos de letargia, a ser um lugar onde elas partilham com muita graça as suas ideias, paixões, histórias, gostos e alegrias. Viva o tomara-que-caia! Viva! E um beijinho (com muita baba) da Alice.
No restaurante chinês, a Alice virava-se de repente ao ouvir as empregadas a falarem naquele idioma tão estranho. Uma delas, pegando-lhe ao colo, explicou-lhe os nomes dos peixes que nadavam, em círculos, no aquário. O bebé voltou para a mesa com um sorriso ainda mais aberto do que é costume. Já aqui falámos, creio, do fascínio provocado pelo timbre francófono da tia Myriam, mas não da alegria com que ela ouve o pai a imitar o sotaque cervantino: «Don Quijote de la Manchaaaaaá y su amor por Dulcineia del Tobosooooó», etc. Pois é. Alice, uma poliglota em potência.
É uma mania como outra qualquer, esta de actualizar para trás. Ou, se preferirem, de escrever a posteriori, em diferido. Tudo para dizer que há material novo lá mais para baixo. Façam o favor de usar o scroll, mais uma vez.
Ainda vamos a tempo de explicar à Alice a importância do dia de hoje:
Li-ber-té E-ga-li-té Fra-ter-ni-té
Ela olha com cara de espanto e continua a mordiscar a girafa de borracha. Não faz mal. Um dia perceberá (ou nós explicar-lhe-emos) o significado de cada uma destas palavras essenciais.
«Ando a ler Os bichinhos, da colecção Dicionário por Imagens dos Bebés, da Fleurus. Estou a adorar: é uma surpresa para mim, sobretudo quando consigo abrir o livro sozinha. Até agora ainda não sei qual é a parte de que gosto mais porque não me deixam prová-lo com a boca. O que tem sido mais complicado é perceber qual é a função dos pés no acto da leitura. Vou pedir à mãe que se documente e me esclareça acerca disso. Sem bibliografia de apoio não vou lá.»
Perante a ausência de colaboração paterna (ele vai actualizar para trás, eu sei) e na impossibilidade de trabalhar com a única mão disponível (o que faz de mim uma blogger com um bebé ao colo, em lugar de uma profissional-mãe-tipo-polvo), vêm aí posts indesculpavelmente patetas. Mas com referências literárias, ainda assim.
A Mãe da Alice tem escrito muito mais por aqui do que o Pai da Alice. É um facto. E um facto sem atenuantes (a não ser a blogagem paterna nos outros lugares do costume). Enfim, a verdade é que só hoje é que me consegui livrar de uma daquelas empreitadas que nos roubam o tempo e nos moem o juízo. Melhores dias virão, a partir de agora. E entretanto a Mãe da Alice vai dando conta do recado em mais esta frente (é uma heroína, é o que é).
Descansa-nos saber que a nossa pediatra, além de ver dezenas de crianças por dia no hospital público onde trabalha (o maior da especialidade, provavelmente) e na clínica privada onde dá consultas sem olhar para o relógio, ainda arranja tempo para se actualizar em congressos e leituras.
Após uma brevíssima hesitação, para avaliar o sabor daquela coisa esbranquiçada e quase líquida que lhe estávamos a dar, a Alice devorou uma pratada de papa, com um grau de aproveitamento do que lhe ia chegando à boca para aí de uns 90%. Vão ser ainda mais divertidos, os nossos finais de tarde.
Há um mês atrás, introduzimos a fruta. Daqui a um mês, introduziremos a sopa. Hoje, pois bem, hoje é dia de papa. Ou seja: 150 ml de um leite em pó com nome de submarino (S-26 Gold, "com LC-Pufas", whatever that means) a que se misturam duas a três colheres de Nutribén primeira papa, sem glúten. Uma aventura.
Eu percebo quem tenha pena de não nos lincar. Leio agora um precioso livro que não posso pôr na bibliografia obrigatória para saber um pouco mais sobre nós e o mundo - embora faça parte da minha estante, felizarda.
Durante quinze dias, temos o pai em casa, legalmente e com licença paga pela Segurança Social. A mãe da Alice tenciona trabalhar e pôr em dia a blogagem. Ao pai caberá a penosa tarefa de (re)introduzir na nossa vida o saudável hábito do sono da tarde.
Bem sei que a efeméride aqui de casa recai hoje sobre quem tem os pés mais pequenos, mas era a mim mesma que me apetecia oferecer estes bocadinhos de Paris cosidos à mão. Quase trinta anos e ainda à espera de uma boneca...
Muito espertos, os senhores que pensam em tudo isso no seu gabinete, depois dos inquéritos e das intermináveis reuniões de consumidores. A Gallo lançou um azeite virgem extra, com 0,2 de acidez, extraído a frio, com um pinto no rótulo - na última ida ao supermercado caímos os três direitinhos na esparrela do "primeiro azeite". Estamos oficialmente em contagem decrescente para a sopa.
E a "entidade patronal" dá (até porque a lei obriga): 15 dias seguidos para o pai estar full time com a filha. Começa na próxima segunda-feira. Mal posso esperar.
- Queres espreitar o catálogo da La Redoute? - O catálogo da La Redoute? - Sim, o catálogo da La Redoute. - Hmmm, para ser sincero, desculpa lá, acho que prefiro acabar de ler o «Mil Folhas». - Olha que traz a Laetitia Casta na capa e lá dentro. - Então se calhar sempre dou uma espreitadela. Sabes, ando a precisar de comprar umas t-shirts novas. - Bem me parecia. Ora bem, ora bem... [Som de páginas viradas com um certo ímpeto.] Acho que é na página 650. - Mas, mas, mas... Espera aí... - Página 650. Olha-me para estes lotes. Porreiros, hem? Preferes o conjunto da vermelha, da beige e da castanha ou o das três brancas todas lisas?
A D. Isabel pousou o café em cima do balcão e entregou-me o catálogo da La Redoute. Não cabia na caixa do correio e traz a Laetitia Casta na capa. Desta é que o pai da Alice se vai interessar pelos lotes de três t-shirts.
A Mãe da Alice foi a este site e pensou numa chucha. E ao fim de uns minutos de interrogatório, apesar de não ser um objecto óbvio, o espertalhão do Darth Vader lá conseguiu ler-lhe o pensamento: «Pacifier». Uuuuuuh, spooky! Experimentem vocês também mas não se esqueçam: todos os cuidados são poucos quando lidamos com o lado negro da Força.
Choros convulsos, birras de uma hora, agitação sem precedentes. Nos últimos três dias, a Alice tem mostrado que também sabe abrir as goelas até ao quase desespero dos progenitores. São episódios curtos mas intensos, cheios de lágrimas, soluços e um «irrenhi, irrenhi, irrenhi» de partir o coração. Depois, volta tudo ao normal. Ela mama, ela dorme, ela sorri, ela brinca. Para a semana, na consulta de pediatria, tiraremos tudo a limpo. Mas desconfio que isto não passa do prenúncio (quer dizer: assim uma espécie de trailer) da terrível fase dos dentes. Até porque nós já os sentimos, aos dentes, sob a gengiva, prontos a romper. E quando romperem a sério, ui, quando romperem a sério é que o sossego desta casa vai mesmo pelos ares.
Sou muito dada a encontros blogosféricos. Todos os géneros me interessam: homens, mulheres, à esquerda, à direita, solteiros, casados, intermitentes, católicos, descrentes, evangélicos.
Sexta-feira fomos às vacinas. O pai, atemorizado, esperou na sala ao lado pelos gritos. A Alice gemeu um pouco na altura da agulha, fez cara feia ao que lhe puseram na boca, e, dois minutos depois, sorria prazenteira para a médica que a veio cumprimentar.
Não há dia que a Alice saia à rua e eu não seja julgada por uma transeunte, familiar, amiga ou conhecida (geralmente, os homens dispensam-se dessa função - do mesmo modo que o pai é poupado ao lugar do réu). Ou é porque está muito frio para o bebé andar descalço; ou porque está muito calor e o bebé devia estar em casa; ou porque, coitadinha, deve estar cheia de fome; ou porque aquelas deviam ser horas de dormir; ou porque a hora do banho é pouco católica; ou porque é incrível como ela não toma nenhum suplemento; ou porque é tão estranho que não coma ainda papa; ou porque sou capaz de a deixar ir sem levar com ela uma reserva de leite materno; ou porque ela está a bolçar; ou porque ela tem calças de ganga; ou porque devia beber água mesmo sem ter sede; ou porque não se percebe se é rapaz ou rapariga; ou porque espirrou; ou porque. A maior parte das vezes respondo com um sorriso, logo replicado pela pequena Alice. É assim a aprendizagem precoce do cinismo.
Já está. Depois de seis anos de trabalho árduo, encafuado em bibliotecas e processadores de texto, mais quatro horas e meia de apresentação oral e denso interrogatório académico, o tio da Alice chegou a bom porto. Isto é: doutorou-se em Paris, com nota máxima e aclamação do júri. Subam no ar os foguetes e o fogo-de-artifício! Gritemos todos a alegria que nos vai cá dentro! Viva o Tio Manel! Viva! Parabéns!Parabéns!Parabéns!
Algures em Paris, o Tio Manel dá por findo o longo trabalho de parto da sua tese de doutoramento. Esperamos as boas novas e as específicações técnicas (nota de aprovação e número de questões colocadas).