Alice já mora aqui [caixa do correio: pais_da_alice@yahoo.com]
quarta-feira, agosto 31, 2005
Boletim escatológico*
Hmmmm. Como é que eu hei-de explicar isto? Digamos que noutras circunstâncias (e com uma mola no nariz) poderia perfeitamente ser confundido com o gelado de pistácio que se vende numa certa gelataria do centro comercial Vasco da Gama.
* uma rubrica da silly season, especialmente dedicada às avós.
Alice - Dá-dá-dá-dá, dá-dá-dá-dá-dá. Pai da Alice - Ai agora já dizes o dê? Alice - Dá-dá, dá-dá, dá-dá. Pai da Alice - Dá-dá, dá-dá? Alice - Dá-dá-dá.
A festa de aniversário da Mãe da Alice foi óptima. Muitos amigos, magnífica comida (obrigado, João) e conversas à sombra, em Monsanto. O bónus veio mais tarde: uma saída nocturna, com babysitters diligentes lá em casa (obrigado, Lia e António), para que os progenitores pudessem comemorar, tête à tête, o primeiro ano de casados.
No sábado fazemos um piquenique comemorativo, no Parque Keil do Amaral, a partir das cinco, na primeira sombra à esquerda. Apareçam. (Digam qualquer coisa antes para podermos contar os croquetes.)
Beijos e abraços, Mãe da Alice (e restante família)
*esta que vos convida estudou na FCSH, a arroba comprova-o.
Gostava de responder, clarividente, a todos aqueles que me olham de lado na rua, sem coragem para me abordar. Enquanto não encontro a resposta, acho que vou pregar o crachá que veio na encomenda da Rosa (obrigada muitas vezes atrasada, mais fotos para breve) no toldo do carrinho da Alice:
«Preciso de uma mãe-fada-do-lar e ainda não sei perguntar como...»
Mãe da Alice - Tá-tá-tá. Alice - Tá-tá-tá-tá, tá-tá, tá-tá-tá. Pai da Alice - Tá-tá-tá, tá-tá, tá-tá, tá-tá-tá-tá. Mãe da Alice - Tá-tá-tá-tá-tá. Tá-tá. Alice - Tá-tá-tá, tá-tá, tá-tá, tá-tá, tá-tá-tá. Pai da Alice - Tá-tá-tá, tá. Mãe da Alice - Tá-tá-tá-tá. Tá-tá? Alice - Tá-tá-tá-tá! Tá-tá-tá-tá-tá. Tá-tá-tá. Pai da Alice - Tá-tá. Mãe da Alice - Tá-tá-tá. Alice - Tá.
My girlfriend's pregnancy lasted over two years. 'Maybe the doctor's right', I said. 'Maybe a baby isn't going to come.' She wouldn't listen. She carried on buying nappies, teething rings, wooly hats and mittens, and little bits and pieces for the nursery. One afternoon I came home to find her cradling a bundle in her arms. 'Look', she said. 'It's arrived. It's a boy, and it's got your eyes.' 'Well done,' I said. 'Congratulations.' 'And congratulations to you too. After all, you don't become a father every day.' 'I suppose not. But really it's you that's done all the hard work.'"
Dan Rhodes, Antropology and a hundred other stories, Fourth Estate, Londres, 2001
Bebé-papa.Não por causa de qualquer inclinação gastronómica ou do plano alimentar para esta idade, mas devido à insistência em sair da manta enorme para beijar o chão verdadeiro que está por baixo.
Dada a escassez de acontecimentos em Lisboa neste Agosto e o estado de exaustão da mãe da criança que rastinha velozmente por toda a casa, inaguramos outra nova série de verão, ainda antes do fim do mês. Petits noms, pelo menos três vezes por semana.
As duas colegas dela aprovaram-na calorosamente. No dia em que ela lhes anunciara, na sala saturada de vapor, que vivera na noite anterior horas indescritíveis com o homem famoso, o trompetista tornara-se imediatamente um bem partilhado por todas as colegas. O fantasma dele acompanhava-as na sala onde elas se sucediam umas às outras e se por acaso lhe ouviam o nome, riam à sucapa como se se tratasse de alguém que conhecessem intimamente. E quando souberam que Ruzena estava grávida, sentiram-se invadidas por um prazer estranho, porque, a partir de então, ele passara a estar fisicamente presente junto delas, nas entranhas profundas da enfermeira.
Milan Kundera, A valsa do adeus, Publicações D. Quixote (tradução de Miguel Serras Pereira)
Alice - Tá-tá-tá, tá, tá-tá. Pai da Alice - Tá-tá-tá, tá-tá, tá-tá, tá? Alice - Tá, tá-tá-tá-tá, tá-tá, tá-tá. Pai da Alice - Tá-tá? Tá-tá? Alice - Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá. Tá-tá. Pai da Alice - Ah! Tá-tá-tá-tá... Alice - Tá-tá. Tá-tá-tá. Tá.
"No dia seguinte, ao acordar, no primeiro dia do outono, José quis ver os olhos da sua mulher e quis vê-la vestir-se. Deitado, reparou-lhe no ventre. Aproximou-se e passou-lhe a mão pelo ventre. Era um alto duro, que se lhe erguia sobre o umbigo e que fazia a mão levantar-se quando a passava. Olharam-se e o sol que estava na manhã entrou pelo quarto. José tratou do gado e foi à vila. No quintal da irmã, sentou-se ao pé do pai. Ficaram assim a tarde e, num momento indistinto dos outros, disse vou ser pai. José olhou para onde estava a olhar. O pai de José olhou para onde estava a olhar. A tarde suspendeu-se alheia a tudo isso."
José Luís Peixoto, Nenhum Olhar, Temas e Debates, 2000
Banda sonora oficial da menina Alice, por estes dias
Canção da falsa tartaruga Cid Campos / Augusto de Campos / Lewis Carroll
Que bela sopa, de osso ou aveia, A ferver na panela cheia! Quem não diz: - Ave! Quem não diz: - Eia! Quem não diz: - Opa! Que bela Sopa! Sopa das sopas, que bela Sopa! Que be_la So__opa! So__pa, só__o So__pa Que bela Sopa!
Que bela Sopa! Quem não se baba, Quem não a papa! Quem não a gaba! Quem não daria tudo só pa- Ra beliscar essa bela Sopa? Beliscar essa bela sopa? Que be_la So__opa! Que be_la So__opa! So_pa, só_ó So__opa! Que bela so__sopa!
Versão brasileira da The mock turtle’s story, extraída do Capítulo IX de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, cantada por Adriana Calcanhotto no álbum Adriana Partimpim (2004).
Nota prévia - Quem pensa que é fácil fotografar um bebé que come sopa pela primeira vez, desengane-se. Não é fácil. Não é mesmo nada fácil. No caso presente, cabia à mãe da Alice segurá-la e ao pai da Alice dar uso à colher, a um ritmo certo. E se tudo correu bastante melhor do que esperávamos (a Alice aderiu sem reservas ao novo alimento, por entre suspiros de satisfação), a verdade é que nos faltou um elemento exterior para fotografar convenientemente a cena. O resultado é o que se pode ver abaixo: disparos cegos e quase aleatórios (feitos com a única mão livre, ao calhas, sem enquadramento). Ainda não é desta que nos convidam para a Agência Magnum.
Como na adolescência, a uma amiga (grávida, agora), ofereço um parágrafo dos melhores que há:
"(...) entre Rutinha e Celsa não havia a problemática imagem do amo e do servo, estado lúdico de poderes distribuídos pela encarnação do amor e do ódio. Eram duas mulheres na confissão da sua natureza que não se completava na maternidade. Eram duas amazonas, como talvez houvesse naquele desencantado Zimbabué de que falava Manuel Clara, estancieiro e estudioso das pedras auríferas do sudoeste africano. Passavam juntas os dias da espera, como se isso fosse um trabalho feito pelas fibras mais íntimas do coração; dos canais cheios de líquidos alimentares; de palpitações várias, de transformações químicas; de sons de torrentes, de válvulas, de comportas. O corpo vivia, concorrendo à vida nova que se formava, produzindo torrenciais produtos de sal e água, vitais ondas de anti-corpos, inteligentes medidas de ferro, misturas de cálcio que endureciam os ossos arredondando a calote cerebral, onde se ia criando o mundo da matérias nobre, o sacro desejo do pensamento."
Agustina, O Princípio da Incerteza - Jóia de Família, Guimarães, 2001
Lidas e analisadas todas as respostas sobre este assunto (muito obrigada às nossas leitoras, os nossos leitores que não se acanhem num próximo referendo, os pais também percebem da coisa) e observado mais meia dúzia de vezes o bebé em questão, concluímos que:
A Alice gasteja ou rastinha. De joelhos dobrados e rabo para cima, peito descido, estica os braços o mais longe que consegue para a cenoura, perdão, brinquedo, mais próximo, arranha a superfície que lhe está por baixo, e desloca-se sem medos até ao seu objectivo.
Até que a evolução ou a roupa nos forneçam uma resposta mais definitiva, este é o estado em que nos movemos neste blogue.
"Rastejar difere de gatinhar na medida que o precede."
Mãe do Gabriel, adorável bebé de sete meses e meio que se encontra em estágio para as melhores férias da sua pequena vida, marcadas para a terceira semana de Setembro, na companhia dos seus pais e do pessoal deste lado.
"Gatinhar é levantar o peito e os braços e as pernas e avançar com os joelhos e as mãos no chão. Rastejar é diferente. É avançar com as pernas todas no chão e com o peito no chão, como uma minhoca."
Mãe do Manel e do Martim. (Este último, da colheita da Alice, chegou duas semanas e uns quilos antes.)
A nossa pequena comunidade de leitores, demonstrando que Agosto não é um deserto na blogosfera, respondeu em massa ao esclarecimento aqui solicitado. A seguir, neste blogue, quatro posts sobre viagens horizontais de um ponto a outro.
Hoje a esta hora devíamos estar a experimentar o maravilhoso mundo dos legumes. Informamos os nossos leitores que o evento "sopa" foi adiado para sábado, permitindo assim um alargamento do quórum familiar.
Pensávamos que o parto não era a pior parte, que tudo seria mais complicado daí em diante, que o nosso mundo estava aí inteiro para nos ajudar, que nunca mais haveria tempo para namorar, escrever, passear e dormir. Foi ao contrário: o nascimento parece-nos agora incomparavelmente duro, as dificuldades vêm sempre de fora, a vida em casa é demasiado fácil para as previsões e produzimos mais do que nunca: sonhos, textos, passeios, deleites.
Ainda não se consegue ver, nem com meios auxiliares de diagnóstico, o novo amigo da Alice. Todos ficamos um bocadinho grávidos ao pé de uma nova barriga.
Mãe da Alice, Lisboa: Queria mandar os parabéns à minha prima Susana que já me adicionou ao seu messenger, que usa um nick muito comprido, e que nasceu quase nove anos depois de mim, por isso lembro-me de ir visitá-la ao hospital.
Um dia a Alice terá dezasseis anos. Pode ser que, como eu, invente máximas pirosas nessa altura, que tenha violentos desgostos de amor, que faça um ou dois amigos que julgue eternos. Um dia, quando eu tinha dezasseis anos, achei que era muito esperta se dissesse que não perdemos amigos, se eles se forem é porque nunca o foram. Hoje isso entristece-me. Não somos mais espertos, ficamos mais velhos. Mais velhos, mais estúpidos, mais pobres, mais sarcásticos, mais fracos, mais infelizes, mais doentes, mais grisalhos, mais azedos, mais gordos. E eu prefiro olhar para o espelho e gostar do que vejo.
Perdemos a Feira de Verão no sábado, mas no domingo estreamos a Alice nos consumos culturais. Não foi por causa do nome deste blogue que escolhemos esta exposição, foi porque quisemos mostrar-lhe Portugal visto do outro lado.
Os pais do nosso amigo Gonçalo (quase três anos, grandes bochechas, rabo leve, agora sem fraldas) fizeram uma menina que chegará pelo Natal. Eu empresto à mãe as calças de inverno para a barriga, a Alice emprestará à filha os vestidos de verão.