Coisas que a Alice experimentou pela primeira vez durante as férias:
- a textura da areia (na praia do Carvoeiro); - as potencialidades lúdicas de um relvado que cercava a casa por todos os lados; - a água aquecida pelo sol de uma piscina circular para crianças (40 centímetros de profundidade); - o zumbido das melgas no quarto durante a noite e as marcas que esses insectos malignos conseguem deixar numa pele demasiado branca e suave; - a arte de bem rastejar em todos os pisos (com a desenvoltura de um militar habituado a situações-limite); - o problema logístico que nasce da partilha com outro bebé de uma manta cheia de brinquedos; - a frustração do primeiro roubo de algo que julgamos que é nosso por direito divino (mesmo se esse algo é uma caixinha verde de plástico com furinhos); - o alento darwinista da luta pela sobrevivência em meio hostil e perante rivais claramente mais bem adaptados à arte de gatinhar; - a amizade que prevalece quando dois bebés aprendem a respeitar os respectivos espaços e gestos; - a beleza dos fins de tarde com a luz muito inclinada e nuvens avermelhadas a anunciar bom tempo para o dia seguinte; - as fraldas de natação com desenhos do Nemo; - o gosto das bolachas esfareladas e cheias de cuspo; - o Ben-U-Ron rabinho acima para lutar contra uma febre que durou menos de um dia; - os biberons servidos num balde de gelo sem gelo (mas com água fria) como se fossem champanhe; - e, mais importante que tudo o resto, a alegria imensa de ter os pais por perto, sempre, sempre, sempre, disponíveis para miminhos e brincadeiras, libertos dos constrangimentos da vida quotidiana e dos horários laborais.
Ok, afinal não foi só uma semaninha, mas quase duas. As nossas desculpas pela ausência inusitada. Importa contudo esclarecer que as férias propriamente ditas limitaram-se mesmo à tal semana redonda. O resto foi o somatório da tradicional ressaca pós-dolce far niente com a vertigem dos mil afazeres à chegada e também, admitamos a verdade, com uma certa inércia blogosférica que nos tolheu, durante vários dias, os dedos sobre o teclado. Enfim, a crise parece que passou e vamos pôr a escrita em ordem nos próximos dias, embora devagarinho que é para não danificar neurónios (os nossos) ainda a sair dessa espécie de estado vegetativo que é a vida off-line.
Ir depois de toda a gente, e sobretudo depois de uma correria mais louca que o chá do chapeleiro e restante companhia, parece mais do que um sonho, um pesadelo. Bom, bom, era dormir durante cem anos. Ao menos não era preciso fazer malas.
Falara com o abade, mal sentira os primeiros sintomas da prenhez. Ele resgatara a alma da criança, tanto mais que a mulher se arrependera no exacto momento de pecar. ― Lá o senhor abade é que quer ser o padrinho do menino. Vai chamar-se Moisés e há-de ir para padre. Falava com o marido à luz da vela e mesmo assim viu-lhe o pescoço avermelhado, como se um pensamento o estrangulasse. O abade ia levar-lhe o primogénito. Porém, o homem fora educado para aceitar os roubos do Senhor. Só perguntou: ― E se não for rapaz? ― É rapaz, sim.
Agosto foi um mês difícil. O calor, as imprevisíveis sestas curtas, as expedições em alegre rastinhanço pela casa toda. Resultado: uma pilha de trabalhos por entregar, uma mãe a precisar de férias. Percebemos que ia ser um ano profissional quase perdido, o que começa nesta rentreé, quando tocou o telefone. Era a Alice muito pequena e escolhemos uma escola para ela, não fosse a falta de vaga condicionar a nossa decisão. É um edifício antigo, como a escola onde andei dez anos, as paredes são brancas, o pé-direito altíssimo, pelos corredores ouvem-se as cantigas cá de casa, todos os que vestem bata são simpáticos e parecem felizes (pequenos e grandes). Visitámos a escola toda algures em Março, com a Alice no marsúpio e a mãe do Gonçalo ao lado, espreitámos a cozinha, a sala de reuniões, o pátio com a laranjeira e todas as casas-de-banho. Depois, pensámos que ainda não era preciso, que eu conseguiria trabalhar o suficiente nos intervalos dos sonos, e desistimos de esperar pelo telefonema. Estávamos a meio de uma sopa de alho francês quando o telefone fixo tocou, atendi-o só porque o número remetente me deixou curiosa. Era por causa da vaga, um lugar inteirinho para a Alice na escola bonita, porque outro menino desistiu e esta mãe respondeu à chamada. Começamos em outubro, depois da E., depois da piolha. Entretanto vamos de férias e vamo-nos mentalizando. Entretanto vamos marcando a roupa e alguém há-de escrever o nome da Alice por cima de um cabide, na porta da sala, junto ao cacifo. Ter um filho é uma escolha demasiado fácil para todas as difíceis opções que se escondem debaixo destes enormes olhos.
Não é só por uma questão estética. É também por uma questão de esgotamento temático. Por muitas voltas e eufemismos que usássemos, os boletins escatológicos acabariam sempre por tender, como certos programas de TV, certos políticos e certos casamentos, para a monotonia. E neste blogue, enquanto depender de nós, monotonia não entra, não.
Há pessoas cujos nomes se adequam espantosamente às respectivas profissões
Por exemplo: daqui a pouco vamos buscar mobília a uma casa com mordomo. E o mordomo chama-se Amável. Senhor Amável. Já para não falar daquela vez em que descobri, salvo erro no Seixal, um consultório médico em que o dentista se chamava Carranca. Doutor Carranca.
Mãe Hoje abriu-se uma janela pela primeira vez Mas tudo o que pudeste ver foi um pequeno lago de águas adormecidas, rodeado por margens de areia brilhante Um pequeno lago alimentado por inúmeros afluentes
Mãe Passou uma semana e o meu minúsculo coração agita já as águas desse lago Estou agarrado à margem vejo ao longe uma pequena bóia mas o medo impede-me de me afastar
Mãe Porque é que andas tão enjoada? Passas a vida a correr para o quarto de banho Não toleras o cheiro a fritos nem o after-shave do pai Espero que não enjoes do cheiro a jasmim
Por favor não me confundam com um girino Embora não tenha nada contra as rãs E muito menos contra as libélulas que povoam os outros lagos
Mãe Estou a ficar velho Disseram-me que já deixei de ser embrião Mediram-me a espessura da nuca E eu aproveitei para realizar algumas pequenas acrobacias
Hoje fiquei finalmente a saber que tinha ventrículos pulmões estômago e uma série de coisas mais Incluindo uns grandes lábios que quase pareciam bolsas escrotais E eu que pensava que aquilo que tinha entre as pernas era uma rosa
Mãe Porque é que o meu coração bate tão acelerado? Por mais que tente não consigo sincronizá-lo com o teu
Mãe Só conheço a cor do crepúsculo Estou morto por conhecer as outras cores do arco-íris
Mãe Hoje surpreendi-te Quando te olhavas nua ao espelho As mãos sobre o púbis segurando a barriga enorme
Mãe Às vezes os dias são um pouco monótonos De forma que me entretive a fazer nós com o cordão umbilical
Mãe Estás com umas olheiras enormes Pelos vistos não te deixei dormir Passei a noite toda a deambular pelos recantos mais sinuosos do teu útero A ver se descobria alguma água-marinha
Mãe Podias ter colocado alguns peixinhos no líquido amniótico Já agora um beta e alguns escalares E porque não alguns nenúfares?
Mãe Apetecia-me uma bebida diferente Que não a minha dose diária de urina
Mãe Esta noite tive um pesadelo horrível Sonhei que te tinham cortado os mamilos Com uma lâmina de bisturi
Mãe Apetecia-me chorar Mas é difícil chorar assim debaixo de água
Mãe O que está a acontecer? O teu útero começou a contrair-se E as contracções vão-se tornando cada vez mais frequentes
Mãe O que é que eu fiz Para me expulsares desta maneira?
Mãe A distância entre mim e ti Não se mede em centímetros mas em lilases
Jorge Sousa Braga, A Ferida Aberta, Assírio & Alvim
Os noivos casaram-se, o padre disse o que seria de esperar, houve pessoas bem vestidas, outras nem tanto, calor, arroz à saída da igreja, carros em grande velocidade na auto-estrada, uma quinta demasiado quente, comida, comida, comida, moscas, moscas, moscas, amigos em conversa, mesas com nomes de filmes, brindes, crianças de colo e um grupo muito giro, com bombo, gaita-de-foles e melodias com travo a Galiza. Tudo o que os casamentos costumam ter, este teve. Mas eu só me lembro bem daqueles minutos em que dancei pela primeira vez, sozinho em frente aos músicos, com a minha filha.
Pai da Alice - Dá-dá? Alice - [Silêncio. Som de roca de plástico a bater, com um ritmo certo, noutro brinquedo de plástico.] Pai da Alice - Dá-dá-dá? Alice - [Silêncio. Som de roca de plástico a bater, com um ritmo certo, noutro brinquedo de plástico.] Pai da Alice - Dá-dá-dá-dá? Alice - [Silêncio. Som de roca de plástico a bater, com um ritmo certo, noutro brinquedo de plástico.] Pai da Alice - Ok, hoje não dá.
Faltam três dias para a chegada do tio Manel (+ Miryam), a parte "francesa" da família que não vê a sobrinha desde um longínquo dia de Fevereiro, quando ela não tinha mais do que umas duas semanas de vida. Aleluia, aleluia, aleluia. Vai ser bonito o reencontro, pá.
Aqui em casa preparamo-nos para a chegada dos tios, contamos os segundos para o babysitting residente. Vai ser bom fazer uma sopa sem ter que me baixar a cada rodela de cenoura para apanhar uma tampa de tupperware.