Alice já mora aqui [caixa do correio: pais_da_alice@yahoo.com]
quarta-feira, novembro 30, 2005
On being grandmother
À porta do metro, uma avó mostrava a outras duas avós as fotos dos netos. «Dão um bocadinho de trabalho, mas são a nossa felicidade e a nossa loucura, não são?» As outras, prestes a sacar das respectivas carteiras, faziam que sim com a cabeça.
Ontem conseguimos arrancar o pai do computador para um passeio ao sítio do costume - com direito a lanche, visita à livraria e sessão de fotografias debaixo da árvore. Agora são 4-quatro-4 os blogues que o pai da Alice quer manter: enquanto a Alice ainda não fala em português perceptível, tenho que ser eu a juntar todos os argumentos da família em favor do ar fresco.
São as três fixações da Alice, nos dias que correm. E eu pergunto-me se isto será um sinal. Vem aí uma engenheira? Uma otorrinolaringologista? Ou, horror dos horrores, uma fashion victim?
Perguntam vocês: por que é que o Pai da Alice não tem sido visto por aqui? E eu respondo: porque anda a fechar o seu blogue mais antigo, ao mesmo tempo que abre o seu blogue mais recente.
1. Valeu a pena não tirar a Alice de sua casa. 2. Para a próxima (lá para os quatro anos) temos que escalar uma equipa de babysitting de prevenção e informar toda a gente do plano B. 3. Se nós temos vontade de ir (mesmo que seja por pouco tempo) é porque sabemos que a nossa filha fica bem e estamos todos preparados para a ausência. Custou-me bem mais ter de a deixar em casa (para ir ao médico, votar, fazer compras essenciais) durante o primeiro mês. 4. No regresso (e durante a nossa ausência) não houve recriminações, choros estridentes, birras. Só mimos, abraços e muito colo. Por enquanto continuamos a comunicar sem palavras.
Não fomos de férias, mas estivemos longe desde a hora de almoço de sábado até à hora do lanche de domingo. Foi um fim-de-semana atribulado, com muita chuva, um babysitting rotativo e a baixa inesperada de um dos elementos escalados. Há dias em que somos tão optimistas que não deixamos de gostar deles nem assim. A Alice sobreviveu sem feridas às primeiras 30 horas longe dos pais, na sua casa, rodeada de todos os brinquedos e perto da sua cama. Os pais também, sem mazelas. O babysitter lesionado perdeu o apêndice.
Celsa acreditava que os filhos dela lhe foram concedidos por um poder sobrenatural e que o homem estava lá para tornar verosímil essa forma de milagre. Cinquenta por cento das mulheres aceitam de boa fé essa manobra de procriação e vêem no filho um pacto com a magia, ou seja, o divino. Por muito que o sexo seja explícito, as mulheres reservam-lhe sempre a crença numa estratégia que envolve a natureza e os seus princípios insondáveis.
Estão em casa dois novos bebés. O João e a T., cujas vidas intra-uterinas fui acompanhando daqui. São segundos filhos e as irmãs parecem tentar sair-se o melhor possível na sua nova condição. Sigo atentamente os relatos destas maternidades duplicadas.
A Alice dobrou a idade total, são tantos os meses cá fora quantos os que passou na barriga da mãe. São também nove meses de blogue em regime fechado: os amigos mais próximos, a família, mais um ou outro blogger a quem levantámos o véu, e outras tantas velhas amizades que fomos reencontrando por aí. Ponderamos um renascimento do deste lado: estamos em negociações internas e em revisão do estatuto editorial do blogue. Novembro é tempo de pormos em ordem a nossa vida bloguística. Daremos notícias antes do fim do mês. Aceitamos contributos para reflexão em pais_da_alice[arroba]yahoo.com.
Eu vi-o quando abriu a boca para se queixar por ir longe de mim, no banco de trás do carro. Depois, em casa, pude senti-lo, o risquinho transparente, só visível com a boca escancarada, a fingir que arranha, sob a gengiva. Parece que a Alice deixou cair o epíteto com que a brindávamos desde que um avô assim a chamou: atrasada dental.
Ao cumprir nove meses exactos, a ultra-saudável Alice ofereceu-nos aquela sensação de sobressalto que para muitos pais, pelo que me contam, deve ser uma realidade quase quotidiana: mas o que é que ela tem? E nenhum alívio chega tão depressa quanto desejávamos. O filme desta mini-crise, em versão sinóptica, pode descrever-se assim: choro agudo, barriga dura como pedra, telefonema para o Dói-Dói Trim Trim, massagens, mais choro agudo, vómitos e o jantar todo cá fora (na cama, na parede, no Tobias, uma desgraça). Depois, felizmente, as coisas acalmaram. E ela ficou ainda mais doce e meiguinha do que é costume.
1. O pai da Alice é o maior inventor de letras das redondezas. Inventa tanto que nem é capaz de reproduzir as suas próprias versões. 2. Apesar do meu ter as orelhas compridas e ao pescoço um lacinho de papel, o cavalinho era de todas as músicas da minha infância a que mais me enervava. Não me admirava nada que tivesse sido a causa da minha primeira irritação: aquele «chá lá lá lá» consegue tirar-me do sério. Além de que acho muito triste o cavalo nunca sair do carrossel. 3. O post anterior é, portanto, uma fraude, um efeito de estilo bloguístico. 4. Cá em casa todos bem.
A maioria dos bebés adora animais. Passa um cão e eles aproximam-se, querem mexer-lhe no focinho, chamam-lhe cão no seu vocabulário monossilábico. Passa um gato de fugida, escondendo-se debaixo dos automóveis, e é a mesma coisa. Cães, gatos, vacas, galinhas e porcos são presença fatal naqueles brinquedos de plástico made in outro lado do mundo que apelam à imitação onomatopeica dos infantes, a partir de sons fanhosos e só vagamente parecidos com o verdadeiro ladrar e mugir dos bichos vivos, sons electrónicos que desesperam os pais ao fim de uns dias. A maioria dos bebés adora animais. That's a fact. Mas a Alice, por enquanto, prefere o reino vegetal. E, dentro das plantas, aprecia sobretudo as grandes árvores que se esticam todas, algumas delas acima dos prédios, com os seus ramos cada vez mais despidos quase a tocar o céu. Quando anda pela rua ao colo do pai ou da mãe, ela olha com uma certa indiferença para os cães que passam lá em baixo, mas fica fascinada com o que acontece acima da sua cabeça, nas copas muito amplas que parecem um tecto verde agitado pelo vento, com folhas a mexer e uma arquitectura sólida, de troncos rugosos e clorofila. Por vezes, chega mesmo a virar-se bruscamente para continuar a sua observação atenta e muito séria. Ou então inclina o corpo todo para trás, com medo de que a árvore saia repentinamente do seu campo visual. Não sei quanto tempo durará este enlevo, mas sei que as árvores não fazem barulho e que por isso não há brinquedos made in outro lado do mundo que as imitem. E isso sempre vai garantindo, até ver, o nosso sossego.
No matter how I try I just can't get her out of my mind And when I sleep I visualise her. I saw her in the pub. I met her later at the night-club. A mutual friend introduced us. We talked about the noise And how it's hard to hear your own voice Above the beat and the sub-bass. We talked and talked for hours, we talked in the back of our friend's car As we all went back to his place.
On our friend's settee She told me that she really liked me And I said "cool, the feeling's mutual”. We played old 45's. I said "it's like the soundtrack to our lives” And she said "true, it's not unusual”. Then privately we danced But couldn't seem to keep our balance, A drunken haze had come upon us. We sank down to the floor and we sang A song that I can't sing any more, And then we kissed and fell unconscious.
I woke up the next day all alone but for a headache. I stumbled out to find the bathroom. But all I found was her wrapped around another lover. No longer then is he our mutual friend.
(para a minha amiga Lia cuja barriga, agora maior, conheço desde os quinze anos)
Numa gravidez saudável, sem sobressaltos, o maior problema não são as dores nas costas, os enjoos do primeiro trimestre, as cãibras que nos acompanham quarenta semanas, as idas à casa-de-banho de hora a hora, o sono. O problema maior não é o tamanho que gradualmente atinge o nosso corpo. O problema maior da gravidez é o modo como o nosso corpo passa a ser um bem comunitário, uma espécie de pequeno altar a que todos querem prestar homenagem, tocando por fora o que o nosso santo filho toca por dentro, fazendo-se fotografar ao nosso lado, adivinhando o que aí vem, comparando maleitas antigas, falando-nos para o umbigo, oferecendo-nos cadeiras confortáveis para nos pouparmos, impedindo-nos o mais pequeno gesto que não seja o de levar o garfo à boca, controlando aquilo que comemos, não por nós mas pelo que transportamos pela placenta (e, mais tarde, no leite). O problema da gravidez é que a barriga que nos cresce todos os dias é cada vez menos nossa. Não menos nossa por dentro, porque lá está a crescer um bocado de nós, que é mais que isso; e, se possível, um bocado do outro que amamos, sendo mais que isso; com sorte, até o símbolo desse amor e muito mais que isso. Menos nossa por um todo, por fora e por dentro (amanhã, outra vez, depois dos bebés nascerem e crescerem um bocadinho, ouvimos de novo: “é tempo de um outro filho” ou “grávida outra vez, mas não têm cuidado?”).
Passamos a adolescência a aprender a viver com o nosso corpo, a fase seguinte da nossa vida a tentar estimá-lo como ele é e a não exigir demasiado dele. É quando temos menos tempo para nos dedicarmos a ele que nos despem mais os olhos que lhe passam por cima.
Foi no último dia, imediatamente antes do regresso a Lisboa. Almoço na Fábrica, aldeia a dois passos de Cacela Velha. Uma travessa de arroz de lingueirão. A ria, a ilha em frente, o mar. Se fosse um jogo de xadrez, diria xeque-mate.
Não, não me refiro ao terramoto que há 250 anos arrasou uma grande parte de Lisboa. Refiro-me a um episódio bem mais prosaico e infinitamente menos trágico: a morte aparente da nossa máquina fotográfica digital, peça importante na existência deste blogue. A história começou há umas semanas, no dia do eclipse anular do sol, coincidente com a entrada da Alice no infantário, e só teve o seu feliz epílogo há poucos dias. O que se passou foi o seguinte: na manhã do eclipse, mesmo antes de deixarmos a Alice na escola, quisemos fotografá-la com aquela luz tão estranha que parecia pousar a medo sobre as coisas. Acontece que depois de alguns disparos, a nossa querida Kodak bloqueou. A objectiva não voltava à base e a velha técnica de ligar e desligar, repetida obsessivamente, também não resolvia o problema. De todas as vezes, a mesma mensagem: Camera Error # E 45. A máquina lá ficou a um canto, à espera de um dia mais desafogado e de uma ida ao representante da marca, no temor da reparação ser tão cara que mais valesse comprar uma nova. Até que no sábado, por mero descargo de consciência, resolvi recarregar as pilhas todas e, bingo, a Kodak voltou à vida, como se nada fosse. Resumindo, a causa da morte aparente do aparelho não foi o eclipse e a sua luz enfeitiçada, mas apenas a nabice deste pai pouco dado às subtilezas da tecnologia. Já a seguir, para celebrar a boa nova, deixo-vos aquela que teria sido a última foto mas afinal, felizmente, não foi.