Ontem à noite, depois de fazer o jogo do umbigo com a nossa grávida itálica (mostra o umbigo, esconde o umbigo, onde é que está o umbigo?), a Alice exclamou, quando as camisolas taparam a barriga de vez, «Não há!», enquanto fazia com as mãos o respectivo gesto. Estou mesmo a ver a cara dos nossos leitores a franzir-se de incredulidade e desconfiança. Mas o certo é que foi realmente «Não há!» o que ela disse. Com a entoação certa e tudo. Temos testemunhas fidedignas que o podem atestar. É só pedirem. E se este fosse o único progresso destes últimos dias...
No frigorífico, restos de comida. Na sala, restos do papel de embrulho que a Alice adorou rasgar. No quarto, brinquedos de plástico que fazem barulho. E um bebé de pijama azul, a rir, ainda surpreendido com a forma como a sua euforia espelha a dos grandes, felizes de a verem tão feliz.
Depois da festa de Natal, no regresso a casa, aconteceu um pequeno drama. Sem sabermos como, talvez na pressa de sair do carro sob uma chuvinha molha-tolos, o Tobias perdeu-se. Deve ter caído algures no trajecto até casa, talvez num daqueles espaços apertados entre os automóveis que invadem os passeios, não sei. O certo é que à noite, na hora de ir para a cama, não sabíamos dele. E tivemos um calafrio: será que ela vai sobreviver a isto? Conseguirá adormecer sem o seu mais-que-tudo? Felizmente, ao contrário do que se passa com muitos outros bebés, a Alice não é tão bonecodepente como nós julgávamos. Quer dizer, bonecodependente até é. Mas não de uma forma, digamos, monogâmica. O importante é ter muitos peluches na cama, ao alcance de uma festa e de um abraço. Pode ser a coelha Miffy, ou o burro Walter, ou o rato Benjamin. Ou podem ser todos, ao molho. A falta de um não se sente muito, se todos os outros estiverem presentes. Por enquanto, não houve crises. O Tobias podia ser o preferido (e era). Mas pelos vistos não era insubstituível. Ainda bem para a Alice. Ainda bem, sobretudo, para os pais que assim talvez não precisem de afixar, pelo bairro, um desesperado anúncio de gato perdido.
Com uma semana de atraso, aqui vai o relato do "fiasco magnífico" que afinal não foi fiasco coisa nenhuma:
Por trás do pano com notas musicais, bailavam sombras. Encostados às paredes da sala, os pais ansiosos, com o dedo pronto a disparar o flash das máquinas digitais ou a carregar no botão vermelho das câmaras de vídeo. De uma aparelhagem, sublinhadas pelas vozes das educadoras, saíam canções natalícias com arranjos e letras infantis. O tempo passava, algumas sombras revelavam-se mais irrequietas e um ou outro choraminganço iam adiando o revelar da cena. Até que de repente o pano baixou. Bruaá de pais e avós babados, comoção geral. Debaixo das luzes, a criançada. Lá atrás, de pé, os mais crescidos, na casa de um ano, um ano e pouco, cantando a compasso junto das educadoras. Na linha da frente, dentro de caixotes de cartão, como se a Anne Gueddes estivesse ali para os fotografar, os bebés da sala da Alice. E a Alice. Devo confessar que não olhei muito para os outros meninos, durante aqueles dois ou três minutos. A minha atenção ia toda para a Alice, uma espécie de cone visual que deixava o resto da sala mergulhada numa espécie de penumbra. E foi ao ver o rosto dela, entre o apreensivo e o apavorado, que temi o pior. Agarrada ao Tobias, o gato cor-de-rosa (primus inter pares na corte dos seus bonecos), só muito a custo é que ela continha o pânico e as lágrimas. Ter de repente tantos adultos em frente dela, sem nos conseguir identificar (a nós, pais) no meio da confusão, parecia um excesso, uma violência. Lembro-me de pensar: «Assim que me vir, ou à mãe, sai dali e só pára quando se agarrar às minhas calças». Felizmente, não foi nada disso que aconteceu. Às tantas, lá nos reconheceu e em vez de exteriorizar a ansiedade, ficou cada vez menos insegura. O rosto desanuviou-se, o corpo agitou-se ao som da música e o caixote não se moveu um mílimetro. Aliás, nenhum dos caixotes se moveu um mílimetro. Finda a música, acesas as luzes do tecto, os pais bateram palmas e resgataram os seus rebentos, a directora da escola prodigalizou sorrisos e as educadoras suspiraram de alívio. Os seus meninos não as haviam deixado ficar mal. Entretanto a noite já ocupara os telhados, lá fora, e o refeitório abria-se para um lanche generoso e conversas de progenitores que prometem prolongar-se, em dias como este, nos anos que hão-de vir.
Não sei se diga que as melhores supresas não cabem na caixa do correio ou se os amigos adivinham o nosso pensamento. Daqui desejamos umas boas festas aos nossos leitores (nós inaugurámos a época no sábado passado, com dois bebés, prendas secretas e muitos balões).
Passeias por entre os jazigos de mármore e granito
polido. Embora prefiras os cemitérios relvados procuras
em plena cidade aquele silêncio que só existe no fundo das
grutas nunca antes visitadas por humanos. A esse silêncio te
abandonas entorpecido pelo cheiro das beladonas.
O Jorge Sousa Braga é um dos poetas portugueses mais apreciados cá em casa. No seu recente «Porto de Abrigo» (Assírio e Alvim, 2005) há um poema sobre o sítio onde deixei o meu avô, já lá vão uns quatro anos. «Prado do Repouso» é um nome delicioso de tão eufemístico.
A Alice - podre de sono, pijama azul "estrunfe", dois dedos na boca - ria-se como nunca se riu, com a cantinela dos parabéns e umas velas malucas que deitavam estrelinhas e se reacendiam a cada sopro. O número era 58. O avô era este.
Esta tarde, a Alice vai participar na sua primeira festa de Natal, preparada com zelo e secretismo pelas educadoras. Aos pais, além de certas exigências quanto à indumentária e um pedido de participação no lanche (12 salgados encomendados de véspera no nosso café do bairro), ninguém adiantou grande coisa. Sabemos que a Alice vai usar calças de ganga e camisola vermelha, sabemos que levará qualquer coisa na cabeça (suspensa numa bandolete), sabemos que é suposto cantar (!) e pouco mais. À medida que nos aproximamos das cinco da tarde, hora fatídica e lorqueana, a ansiedade aumenta. O que acontecerá naquela sala, com os bebés que estamos habituados a ver todos os dias, brincalhões ou sonolentos, simpáticos ou chorosos? Desconfio que chegada a hora H, ao verem os pais ali mesmo a dois passos, vão gatinhar furiosamente na direcção dos colinhos paternos e maternos, arruinando o esforço dramatúrgico das educadoras. Pode ser que me engane, claro. Mas não me parece. Estamos psicologicamente preparados para um desastre. E não há mal nenhum nisso. Se a festa redundar num fiasco, não duvidamos que será um fiasco magnífico.
A educadora da Alice segue à risca o projecto de envolver as famílias na vida da escola. Depois da estrela para o placard da sala, pediu-nos que decorássemos uma tampa de frasco (à escolha) e a colássemos numa mola da roupa de madeira (fornecida). Fomos adiando a coisa, que a Alice ainda não consegue ajudar nada, mais pelo contrário. Numa noite destas, deitámos mãos à obra e ousámos as três dimensões com uma caixa de cereais (Crunchy Chocolate, marca branca, do melhor que para aí anda em relação qualidade, proximidade e preço). As letras deviam ter sido tapadas, mas era muito tarde e deu-nos para a Pop Art. A lã é de um projecto de camisola em tricot (ponto de jarreteira) que gostava de terminar a tempo de Alice caber nele. Para a cola a mais é que não há desculpas, seguiu pouco melhor, pode ser que as luzes disfarcem.
A nossa árvore está mais composta, com uns embrulhos coloridos a esconder a base. A Alice vai ter pouca coisa, mas como não sabe seguir linques podemos revelar aqui que terá direito a um destes, fabuloso. A Rosa recebeu-nos na loja que se aproxima perigosamente do fim do prazo de validade. Queríamos levar tudo, mas trouxemos só duas lembranças: uma para o bebé, outra para a nossa amiga que não quer receber prendas de natal. A nossa ausência de espírito natalício valeu-nos uma colecção de postais muito querida que não agradecemos convenientemente.
Lembro-me das aulas de preparação para o parto, de olhar toda a turma e pensar que em comum tínhamos sobretudo o tamanho da barriga, às vezes nem isso, e algumas peças de roupa. Lembro-me de tentar inventar atabalhoadamente uma profissão numa roda de advogadas, consultoras jurídicas, gestoras e técnicas de marketing. Sabia perfeitamente quem eram os pais que não faltavam, dava cotoveladas ao pai da Alice que queria responder bem a tudo - «têm tido contracções?», perguntava a Isabel, «sim, sim!», respondia ele, entusiasmado, antes de todas as outras grávidas.
O curso foi especialmente útil durante o primeiro mês de vida da Alice, em que as dúvidas são mais fáceis de esclarecer a horas insólitas e com mães recentes, conhecidas, amigas, bloggers, por sms, por e-mail, num fórum de dúvidas semelhantes. Não gosto especialmente do fórum: é preciso filtrar o excesso de senso comum impregnado em muitas respostas; a mim dá-me jeito explicar tudo minuciosamente, ali pede-se desculpa por testamentos com mais de 160 caracteres abreviados num post. Mas sorrio sempre quando reparo no que perguntam as mães com filhos da idade da Alice, nascidos na mesma altura, as mesmas dúvidas, outras nem por isso, às vezes mais dentes, às vezes mais quilos.
Quando os encontrámos na Feira do Livro, corremos a espreitar o carrinho deles, quisemos saber do parto, como se chamava o bebé, quando tinha nascido exactamente. Porque se chamava Vicente e tinha provado horas antes as dificuldades de comer com a colher, rimo-nos com a coincidência das mães, grávidas até ao mesmo dia, colegas no curso preparatório, trocarem mensagens no fórum. Esta semana voltei lá e a mãe do Vicente respondeu outra vez à minha dúvida. Lá conseguimos trocar e-mails e fotos, lá lhe adiantei o endereço deste lado. Nascido a 11 de Fevereiro como a Alice, o Vicente leva-lhe sete dentes e meio de avanço. Eu, que já me confessei apreciadora dos encontros reais que a blogosfera proporciona, mal posso esperar por vê-los ao vivo e por repôr o equilíbrio de informação entre as duas famílias.
Ontem a Alice provou peixe cozido e gostou. Em primeiro lugar no ranking das proteínas está, neste momento, ovo (apenas permitido na sua parte colorida, uma vez por semana), seguido a curta distância pelo borrego. Vamos observar atentamente a ementa semanal e perceber se a pescada sobe ao pódio, empurrando com subtileza para o lado as aves (frango e perú) que dividem em ex-eaquo o terceiro lugar. Divulgaremos os resultados assim que forem oficiais.
Por mera coincidência, as duas avós da Alice estão doentes. A materna com uma infecção respiratória que passará certamente dentro de dias, a paterna (menos afortunada) com uma fractura no braço direito que lhe provoca dores intensas e muitas limitações nos mais pequenos gestos quotidianos. Hoje, dia feriado, passámos umas horas na cozinha a preparar refeições para a geração que tantas refeições preparou para nós. Na sua cadeira azul, a Alice assistia a tudo, entre o sorridente e o ensonada. Pelo meio, como é óbvio, também a alimentámos. E conseguimos sair de casa com os sacos cheios e a loiça (quase) toda no escorredor. O mais curioso: estender às nossas mães os cuidados que prestamos à nossa filha não teve o peso de uma obrigação familiar, antes a difusa alegria de quem sabe retribuir quando é preciso.
Quando quer chamar a mãe, a Alice diz mã-mã-mã. Quando quer chamar o pai, a Alice diz... mã-mã-mã. A mãe da Alice diz que não é nada complicado: há a mamã mamã e o papá mamã. O pai da Alice não sabe o que pensar.
Este não é um craft-blog. Por isso, a estrela que decorámos durante o fim-de-semana, um verdadeiro trabalho de grupo (pai e mãe a trabalhar, alice a cirandar), foi ficando assim:
A partir dos seis meses, o bebé controla cada vez melhor os seus movimentos, é capaz de se sentar e não tarda a gatinhar. estas novas capacidades vão permitir-lhes investigar, descobrir e aproximarem-se das coisas que os atraem, entre as quais figurarão os brinquedos.
Os brinquedos ideais para esta etapa são: - cubos pequenos de pano (os de madeira ainda não, já que os bebés costumam atirá-los e poderiam magoar-se); - aros de plástico ou de tecido, para encaixar numa vara; - mantas com centros de actividades com diferentes texturas, espelhinhos, sons, etc., para deixar o bebé no chão; - aneis de dentição; - bolas e objectos que rodem.
Segurança
- Evite brinquedos com buracos pequenos onde o bebé possa ficar com os dedos entalados. - Os fios compridos podem ser engolidos ou ficar enrolados à volta do pescoço. - As cores dos brinquedos devem ser resistentes, uma vez que o bebé leva tudo à boca. - Evite bonecos com partes que possam ser arrancadas - olhos de bonecos. - Evite brinquedos com arestas, bordos cortantes e bicos. - A própria embalagem do brinquedo deve ser logo retirada, pode representar perigo de asfixia.
A verificar pelos pais:
- Marcação CE, que indica que o brinquedo em questão cumpre os requisitos essenciais de segurança que estão em conformidade com a legislação em vigor. - Símbolo gráfico que indica que o brinquedo em causa não deverá ser dado a crianças com menos de 3 anos de idade, devido ao risco de poder causar acidentes graves.
Esta é a parte do folheto que a educadora da Alice entregou aos pais que nos diz directamente respeito. É também por isto que gostamos da escola.