Alice já mora aqui [caixa do correio: pais_da_alice@yahoo.com]
segunda-feira, janeiro 30, 2006
Acasos
Quando espreitei o meu favorito dos sites que adivinham o futuro (a par deste e deste), reparei que a descida da temperatura se acentuava no domingo ao lado do ícone da nuvem. Não pensei que fosse nevar, mas foi o suficiente para ligar todos os aquecedores da casa, abrir as portas para espalhar o calor e agendar um dia de trabalho, chá e mantas. Aconteceu-nos sair à hora do almoço para apanhar um envelope urgente, chegado do Porto à Gare do Oriente e arriscarmos tentar comer no shopping em frente. Aconteceu-nos que o restaurante escolhido tivesse janelas e que pudéssemos ver a neve com o pavilhão atlântico ao fundo. Também nos aconteceu não termos máquina fotográfica, mas para estas coisas a memória funciona bem e a neve voltou quando já estavamos em casa e pudemos registá-la para a posteridade em pequenos filmes (já que nas fotografias não é evidente). O que eu acho espantoso não é só que tenha nevado em Lisboa, cumprindo-se finalmente os vaticínios diários do pai da Alice («isto hoje vai nevar», dia-sim, dia-não, desde que estejam menos de 15º Celsius). O que eu acho espantoso é que tenha nevado num domingo, entre as três e as quatro da tarde ou coisa que o valha. Se fosse de madrugada, ninguém veria. Se fosse a um dia de semana, a probabilidade de tantas pessoas repararem seria menor (mesmo que os avisos circulassem por telemóvel, como circularam, aliás, saturando o ar por onde caíam os flocos gelados). São inesperadas conjugações deste tipo que me enchem de uma alegria infantil. E que contagiam a verdadeira infanta cá de casa.
Riu-se sobretudo por nos ver divertidos, a correr de janela em janela e apontar para a rua. Gostou tanto da neve quanto da fita do estore e de beber água por um copo como as pessoas crescidas.
O nosso bairro é sobretudo uma rua comprida, de passeio estreito, com cafés porta sim-porta não, meia dúzia de mercearias, uma loja chamada Campeão dos Preços. E o Pantufa. O Pantufa é da rua, do bairro, de todos os miúdos das duas escolas, e o passeio é todo dele. Gostava de o ter apanhado deitado ao comprido, ao sol, com o focinho caído sobre o lancil, a apontar para a estrada. Saiu-me este retrato tirado quase em frente ao café que nos calhou na rifa e onde somos tratados ora com uma indiferença rezinguenta, ora com um excesso de intimidade. Hoje fui lá mais cedo do que o habitual. A Dona Isabel, que estava bem-disposta, trata-me pelo diminuitivo e pergunta-me, enquanto põe o café que não pedi em cima do balcão, «por cá, tão cedo?». Consegue sempre arrancar-me justificações: que sim, que tinha umas coisas para tratar na rua logo de manhã, que tinha que aproveitar bem os dias porque daqui a nada era hora de apanhar a Alice de novo. «Faz bem, se começa a ficar na cama, no quentinho, a enroscar-se, não faz mais nada.» Esta mulher, o marido dela, a filha, e o bairro inteiro, imaginam-me o Pantufa das donas de casa. Em casa o dia todo, ainda por cima sem a filha, ainda por cima manda passar a roupa fora, ainda por cima não vem fazer sala para o café. Lá lhe digo, não sei ainda porquê, que sou eu que visto a Alice todas as manhãs, enquanto o pai se veste a si mesmo, que lhe preparo a mochila, que a vou buscar o mais cedo possível porque não gosto que fique demasiadas horas na escola, que preciso de trabalhar no intervalo. Saio, mal disposta com o café, porque queria antes uma meia-de-leite e não tive tempo de a pedir. E muito irritada com esta minha mania crónica de me explicar a quem não preciso que me entenda.
À entrada da escola, mesmo por cima do banco corrido de madeira onde os pais vestem os casacos aos filhos, há um placard onde se afixam trabalhos dos meninos das várias salas. Está agora patente uma exposição de trabalhos com variações a partir deste livro (colagens de fios magrinhos de lã e frases ditadas à educadora). Sempre cheia de saudades à hora do lanche, ainda não pude dedicar tempo suficiente à apreciação de cada obra. No entanto, num primeiro olhar, interessei-me por duas. Uma delas, a da Diana que diz que se fosse muito magrinha cabia dentro dos livros. A outra, não me lembro do que dizia, para mim ficou só a cintilar a assinatura (vinda ela, essa sim, directamente das lombadas da nossa estante): "Ruben A."
- Pai... - ... - Paiiiiii! - Sim, filha. - Tu e a mãe às vezes dão beijinhos na boca? - Sim, damos. - Porquê? - Porque o pai e a mãe gostam muito um do outro. - Mas... Na boca? - Sim. - Yuk! Que nojo!
Na gravidez é sublime sentir o bebé mexer (sempre e não só da primeira vez). Para o caso de me esquecer registo aqui que, no meu caso, foi às 18 semanas. E que ando sempre à espreita, à espera do próximo mimo.
A Grávida Itálica transporta o nosso correspondente na vida intra-uterina.
Ainda não nos adaptámos à nova vida. Não somos demasiado prejudicados pelo trabalho irregular do pai: ontem esteve de folga, pudemos gozá-la juntos, no fim-de-semana trabalhamos ambos, eu acumulo com o babysitting. Era muito mais complicado se eu tivesse um emprego com horário fixo e a Alice ocupasse os buraquinhos da nossa agenda, assim não custa tanto. Só voltamos a ter sábado e domingo, na melhor das hipóteses, no fim do mês. Até lá, o pai levanta-se mais cedo, acorda a Alice, dá-lhe o leite, brincam muito, eu visto-a enquanto ele toma banho, e rumam os dois à escola. Depois, faço o que tenho a fazer em seis horas, trabalho, arrumo a casa, faço compras, vou cobrar dívidas difíceis, pagar dívidas em atraso, e corro para a escola à hora do lanche. Quando chegamos a casa, estou por conta dela até dormir. Posso ler um bocadinho enquanto brinca, mas interrompo o livro e nunca a ela. Às vezes dorme, às vezes faz-me companhia nas sopas. Quando é preciso, volto para o escritório à noite.
Se tudo depender de nós, safamo-nos com este esquema e até nos conseguimos sentir bem com ele. O inferno são os outros, ou melhor, o nosso medo de lhes indicar um lugar.
A Alice gosta de desvios à norma, de erros nos padrões, de acontecimentos insólitos: parafusos, botões, molas, nódoas, migalhas, velcro, pedacinhos de fita-cola. Tudo o que se destaca do fundo, puncta (plural de punctum, tal como é definido por Barthes n'A Câmara Clara).
- Gatinha perfeitamente, mesmo em velocidade, tendo abandonado quase por completo o modo rastinhar (ultimamente usado apenas em caso de necessidade de rapidez). - Usa e abusa de todos os gestos significantes que conhece, aplicando-os no momento certo. O rol: "não há" (mãos abertas, palmas para cima), "tchau" (braço esticado, a mão abre e fecha, é usado como saudação genérica para qualquer pessoa a uma distância máxima de três metros, sem discriminação de sexo, idade ou outras), "mãos na cabeça" (faz parte da primeira canção com coreografia que aprendeu na escola), "palminhas" (recorre a elas quando lhe pedem, quando está contente ou quando ouve música), "festinha" (geralmente executa a pedido, cada vez mais carinhosa, para isso tem contribuído o trabalho da auxiliar Sofia que estava cansada de levar estaladas de amor). - Finge que dá beijinhos (umas dentadas lambidas, rápidas, acompanhadas de gritinhos de alegria). - Põe-se de pé sempre que quer, desde que apoiada num ponto. Tudo serve. Gosta de fazê-lo em graus elevados de dificuldade, por isso, antes de repetir infinitamente a façanha, baixa-se para apanhar bonecos com as ambas as mãos. - Aponta para todas as imagens de livros e revistas. Acreditamos que o indicador esticado antecipa a nomeação propriamente dita. - Passou a gastar das fraldas número 4, depois do conteúdo das 3 ter passado muitas vezes para fora. Na semana passada, todos os dias trouxe um saco de roupa suja da escola, o que não ajudou na gestão das tarefas domésticas em atraso.
Ainda bem que não fizemos uma lista de intenções para o novo ano. Já tínhamos um mais e um menos na caderneta. O pai tem conseguido levar a Alice à escola no horário pedido (mais cedo que o horário permitido), mas nenhum dos dois tem conseguido cumprir com a presença de qualidade aqui no estaminé. Temos uma casa na ressaca das festas (metade já está bastante operacional) e um dos elementos da dupla a precisar de passar muito mais tempo no local de trabalho. O que quer dizer que cabe ao outro a gestão do lar em nome da paz nos períodos passados a três. Quality-time é a palavra de ordem. Estamos bem assim, mas temos dificuldade em que o mundo em geral nos deixe ser nós a gerir a nossa agenda.
Não sei quando comecei a andar, que palavra disse pela primeira vez, quais os meus gostos alimentares quando era bebé. Sei apenas com que peso e altura nasci e outras memórias difusas misturadas com os factos importantes acontecidos nas vidas dos meus cinco irmãos mais velhos. Mentira, a minha mãe lembra-se de subir a Rua da Madalena muito grávida de mim e que estava calor quando nasci, a 21 de Maio, na data prevista. Agora, temo estar a reproduzir este cenário, mas sem a desculpa que ao sexto filho já não se liga a estas coisas.
Pensei sempre que ia registar tudo o que acontecesse e sentisse na gravidez, mas dou por mim sem tempo (paciência?) para o fazer. Nem neste espaço gentilmente cedido para o efeito. O Lourenço ainda não nasceu (sim, é um rapaz!) e já me assolam sentimentos de culpa pelo que não faço (por ele). Se ele for como eu, iria gostar de saber mais pormenores sobre a sua vida in utero. Ainda não me exigiu nada a não ser um pouco de espaço na barriga e já me apercebo que somos poços de insuficiências várias…
Suponho, afinal, que estamos a crescer os dois dentro de mim.
A Grávida Itálica transporta o nosso correspondente na vida intra-uterina.
Há imensa coisa para dizer, a começar pela festa na escola (a minha angústia nos olhos dela) e acabar com os desejos misturados em doze passas (o bebé passou de ano sem abrir os olhos). Não vale a pena, já passou um século desde o Natal, tudo se resume a duas frases (longas) e a meia-dúzia de coisas que guardamos só para nós:
1.A Alice teve as prendas merecidas e adequadas à idade: uma mesa para tocar tambor e guardar brinquedos, uma arca de noé feita piano que um dia destes perde as pilhas, a obra completa infantil do José Barata Moura (para não ficar atrás do amigo Gabriel), um jogo para encaixar formas, uma família de patinhos de madeira, uma girafa que ama muito, roupas quentinhas e dois recuerdos da inauguração da época. 2. O pai da Alice, deslumbrado com um casaco novo para uma vida nova, ouviu os meus pedidos e surpreendeu-me com um pijama para o Ipod, cuidadosamente confeccionado pela Rosa (ainda quentinho, quase podia ouvir a voz da E. quando o abri e espreitei lá para dentro); um cinto (para ver se eu deixava de usar o dele, o que diz muito do estado dos corpos nesta casa) e uma mão cheia de embrulhos daqui para os serões que nos restarem.
Mas as festas foram muito mais do que isto. As festas começaram a 17 de Dezembro com um lanche e troca de prendas, animada por duas meninas, uma grande barriga e quatro balões, e só acabam dia 7, quando se desfizer a árvore e se cantar os parabéns à avó. Entretanto, houve os anos do avô, o longo jantar na casa que acolhe a maior colecção de Alices e gatos, o nascimento da pequena Diana e o natal dos amigos com prendas secretas.
Depois da consoada, de um jantar com amigos há muito adiado, do reveillon e do encontro de ano novo com os tios, estamos peritos em arrumar a casa, fazer compras, pôr a mesa, cozinhar e brincar com gnomo quase caminhante, tudo ao mesmo tempo. Das ementas constou: bacalhau espiritual, soufflé de abóbora e batata, peixinhos da horta e um bolo de chocolate que dizem bater o melhor do mundo (de quem é, aliás, vizinho). E no fim da semana, no último segundo, a boa notícia de mais e melhor trabalho para o pai, o que vai obrigar-nos a gerir muito bem o tempo livre que temos para os três. Tanta coisa num só post? Está já em prática a minha promessa de ano novo: não desperdiçar 2006.