Alice já mora aqui [caixa do correio: pais_da_alice@yahoo.com]

O nosso bairro é sobretudo uma rua comprida, de passeio estreito, com cafés porta sim-porta não, meia dúzia de mercearias, uma loja chamada Campeão dos Preços. E o Pantufa. O Pantufa é da rua, do bairro, de todos os miúdos das duas escolas, e o passeio é todo dele. Gostava de o ter apanhado deitado ao comprido, ao sol, com o focinho caído sobre o lancil, a apontar para a estrada. Saiu-me este retrato tirado quase em frente ao café que nos calhou na rifa e onde somos tratados ora com uma indiferença rezinguenta, ora com um excesso de intimidade. Hoje fui lá mais cedo do que o habitual. A Dona Isabel, que estava bem-disposta, trata-me pelo diminuitivo e pergunta-me, enquanto põe o café que não pedi em cima do balcão, «por cá, tão cedo?». Consegue sempre arrancar-me justificações: que sim, que tinha umas coisas para tratar na rua logo de manhã, que tinha que aproveitar bem os dias porque daqui a nada era hora de apanhar a Alice de novo. «Faz bem, se começa a ficar na cama, no quentinho, a enroscar-se, não faz mais nada.» Esta mulher, o marido dela, a filha, e o bairro inteiro, imaginam-me o Pantufa das donas de casa. Em casa o dia todo, ainda por cima sem a filha, ainda por cima manda passar a roupa fora, ainda por cima não vem fazer sala para o café. Lá lhe digo, não sei ainda porquê, que sou eu que visto a Alice todas as manhãs, enquanto o pai se veste a si mesmo, que lhe preparo a mochila, que a vou buscar o mais cedo possível porque não gosto que fique demasiadas horas na escola, que preciso de trabalhar no intervalo. Saio, mal disposta com o café, porque queria antes uma meia-de-leite e não tive tempo de a pedir. E muito irritada com esta minha mania crónica de me explicar a quem não preciso que me entenda.