
Este blogue faz hoje um ano e assinalar isso faz parte do conjunto de convenções que regem a blogosfera. *
Não posso dizer que conviva bem com todas as convenções, mas também não lhes tenho uma alergia crónica. Por exemplo, gosto do meu ginecologista (também) por causa de uma convenção que ele tem com o meu seguro de saúde. E cedi à mais comum das convenções. Casei-me, assinei um contrato diante de testemunhas, umas que escreveram o seu nome por baixo do meu e do meu marido e outras que apenas cumpriram o seu papel estando presentes. Pensei sempre que o casamento não me ia fazer mal, que não ia alterar o que me passava pela cabeça, o que se sentia aqui por casa, os projectos para o futuro e a quantidade de roupa para pôr na máquina. Em tom de brincadeira, até escrevi, no livrinho que nos serviu de aliança e que distribuímos depois aos convivas, que tinha casado por interesse e não mentia. Porque estava grávida, era preciso deixar o quinto andar alugado sem elevador, era preciso vender uma casa e comprar outra. Era tudo mais fácil se nos casássemos. Como somos um homem e uma mulher, pudemos fazê-lo sem dificuldades e até escolhemos quando. Casámos no dia 27 de Agosto de 2004, o dia em que casei também eu os anos, completando 27. Foi mais ou menos assim que consegui convencer o pai da Alice a alterar outra vez o seu estado civil. E como sou rapariga de festas, não me neguei a um vestido e a uma comemoração a dois tempos. Todos os pretextos são bons quando se trata de celebrar o amor.
Não sei o dia exacto em que aconteceu, mas fui percebendo aqui e ali, que afinal muita coisa mudou desde então. Não mudou o que nos passava pela cabeça, o que se sente aqui por casa, os projectos para o futuro e a quantidade de roupa para pôr na máquina (o.k, desde que a Alice nasceu, a máquina passou a trabalhar muito mais, mas acho que se não nos tivéssemos casado, isso acontecia do mesmo modo). Onde mudaram as coisas então? Na cabeça, mais precisamente nos olhos, dos outros. Porque se é verdade que para mim o casamento não tem grande importância, ele não deixa de ser uma convenção e ter um valor para os outros. Os sociólogos sabem explicar isto muito melhor. Para mim, e creio que para o meu marido (a etiqueta também é outra), o casamento teve importância naquele dia de festa e no dia da escritura de venda da minha casa. Também deu jeito no dia em que a Alice foi registada: assim bastou que um de nós se deslocasse à Conservatória, e regressasse sozinho ao local do crime, perdão, do matrimónio contraído. Isto tudo para dizer o quê? Que eu pensava que passava incólume pela convenção e enganei-me. Não passei porque os olhos dos outros me condicionam. É assim a vida depois da Modernidade (melhor, apesar de tudo, do que a antecedeu).
Agora encontro-me outra vez enredada nas convenções. O calendário diz que a Alice completa um ano de vida no próximo sábado. Para mim, não é assim tão especial essa data. Acho muito mais propício aos festejos o dia em que se completam os nove meses, momento a partir do qual se passa sempre mais tempo fora do útero que dentro dele. Sou forçada a comemorar o primeiro aniversário da Alice porque não posso simplesmente ignorá-lo. Quando a Alice tiver três anos e mais (talvez mesmo aos dois, não sei) imagino que seja diferente, terá com certeza consciência da festa, saberá melhor o que fazer quando vir uma vela acesa e toda a gente a cantar. Por agora, não tenho dúvidas, o aniversário é única e simplesmente um capricho dos pais (e outros parentes) que comemoram alegremente 365 dias de vida do rebento. Pois muito bem, ficamos felizes por estarmos juntos há tanto tempo. Acontece que no próximo sábado não estamos efectivamente juntos: eu e a Alice estamos em Lisboa, o pai está em Berlim. E assim não me parece haver motivo de comemoração. Mas acontece aquilo que já aqui escrevi de várias formas: um filho não é só nosso filho, é neto, sobrinho, amigo de outros. E é refém de todos esses que estarei daqui a dois dias. Refém das suas alegrias e das suas recordações (provavelmente até de momentos que talvez não me apeteça recordar, como o parto, e outras angústias e delícias que mantivemos secretamente nossas). Adivinho que este dia me será mais penoso do que aquele em que a Alice foi pela primeira vez para a escola.
* da definição, segundo a Priberam: aquilo que, tacitamente, se considera admitido nas relações sociais;
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