Alice já mora aqui [caixa do correio: pais_da_alice@yahoo.com]
Não faço ideia de quem terá sido o inventor do modo
câmara-de-filmar-para-pequenas-sequências-que-é-suposto-durarem-30-segundos-ou-pouco-mais que as modernas máquinas fotográficas digitais oferecem, mas, mesmo desconhecendo a identidade desse génio, queria daqui mandar-lhe uma saudação infinitamente grata e comovida.
É que nos últimos dias, sobretudo à noite, antes de dormir, quando me atacam de forma mais violenta as saudades da filhota que já fez um ano, é a essas
sequências-que-é-suposto-durarem-30-segundos-ou-pouco-mais que tenho recorrido. Elas estão na memória da máquina trazida na bagagem para Berlim e mostram-me a Alice a bater na janela quando nevou lá fora, a Alice fascinada com uma pilha de livros e a Alice a hesitar, na parte da biblioteca que fica no corredor, entre o
Anthropology and a hundred other stories do Dan Rhodes e
As Cartas a um Jovem Poeta do Rilke.
São pequenos
loops, gestos e olhares que se repetem uma e outra vez. Mas para mim, aqui tão longe, é o suficiente para mitigar esta falta que a acumulação dos dias vai tornando imensa.