Alice já mora aqui [caixa do correio: pais_da_alice@yahoo.com]
Quase sempre sem sapatos (ou com os
bobux, que são como invisíveis), a Alice tem dado esporadicamente alguns passos sem outro apoio que não os seus próprios pés. Houve um retrocesso, coincidente com a compra dos rígidos Chicco, e agora parece que conseguiu ultrapassar o ponto onde estava há cerca de um mês. O assunto dos sapatos e o começo do caminho será abordado, em breve e como convém, num post cheio de linques. Hoje começa a Primavera, é o primeiro equinócio deste ano. No próximo equinócio (21 de Setembro) podemos já ser mais cá em casa. Até essa altura, podem ser mais a ler-nos. A partir de hoje, os primeiros passos na nova casa,
aqui.
Está quase, quase, quase. Mas mesmo quase.

Não temos escrito porque temos passado mais tempo na parte da frente da casa, onde a luz da tarde voltou a ser inigualável. A Alice é portadora de um vírus que já passou pelas vias respiratórias e ataca agora o apetite e tudo o que tem a ver com o sistema digestivo, mas felizmente não atinge a boa disposição. Nós somos portadores de um segredo cada vez menos secreto e metemos mãos à obra para mais uma mudança de casa. Vamos ali empacotar uns posts e já voltamos.
Afinal, havia uma razão para as birrinhas, para os ataques de mimo (maiores ainda do que é costume) e para a falta de apetite. Um síndroma viral, apanhado sabe-se lá onde, começou por afectar-lhe a garganta, com tosse, etc., prolongando-se depois para o sistema digestivo. Resultado: a Alice comilona aceita agora três colheres de papa de arroz, no máximo, e afasta logo o prato, com um esgar de náusea. A médica diz que é normal e que a coisa passará por si, mais dia menos dia. Entretanto há reforço de líquidos, doses redobradas de beijinhos e uma diminuição visível da pancinha que atingia já, segundo vários relatos, graus acentuados de proeminência.
Hoje, nem sei bem porquê, ocorreu-me uma evidência: daqui a alguns anos, quando for mais crescida, a Alice não recordará um único dos momentos de absoluta felicidade que temos vivido até agora. E esta evidência, nem sei bem porquê, deixou-me melancólico.

Já só falta encaixar uma peça no
puzzle.
Passam hoje 13 meses sobre o nascimento deste blogue tendencialmente secreto (talvez não por muito tempo).
É uma arte que a menina Alice tem vindo a aperfeiçoar, a das birrinhas por tudo e por nada (mais por tudo que por nada). Uma arte de fino recorte dramático, com ameaças de choro e gestos teatrais, mas a que o público-alvo consegue resistir de uma forma, digamos assim, próxima do estoicismo.
Não há nada mais belo e comovente no mundo do que a alegria da Alice quando me vê chegar.
Atiras o relógio pela janela, com
raiva, uma trajectória que acaba
no pequeno pátio onde os gatos
brincam com as sombras. Dizes
regresso, navio, Ulisses, palavras
contra a ideia do tempo que passa
por nós assim, quinze andares a
pique e depois nada. Eu olho as
nuvens lá no alto, distantes, são
as mesmas que os gregos viam,
igual brancura e lentidão; os gatos
escondem os ponteiros inúteis, tu
perguntas algo que não entendo,
algo sobre a importância do mar
quando uma cidade nos espera.Para a Rute, que esteve connosco ontem e em tantos outros dias, a partilhar nuvens e bocadinhos de bolo -
o poema está na contra-capa de Nuvens & Labirintos, de José Mário Silva, publicado pela Gótica em 2001 (dois mil e um e depois nada).